PARAÍSO 200 ANOS

Paraíso poderia se transformar numa cidade resiliente

Por: Roberto Nogueira | Categoria: Cidades | 26-10-2021 10:24 | 400
Lagoinha, em Paraíso pode ter projeto dentro do programa Cidade Resiliente
Lagoinha, em Paraíso pode ter projeto dentro do programa Cidade Resiliente Foto: Reprodução

O Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM) promoveu em setembro, através do projeto Café Geológico, debates sobre cidades resilientes. Conforme a Organização das Nações Unidas (ONU), as cidades resilientes são aquelas capazes de “resistir, absorver, adaptar-se e recuperar-se dos efeitos de um perigo de maneira tempestiva e eficiente, através, por exemplo, da preservação e restauração de suas estruturas básicas e funções essenciais”. E assim a nossa Paraíso tem se comportado, principalmente, após aquele fatídico 9 de setembro em que a cidade foi atingida pela “chuva negra”, fenômeno antes nunca visto mesmo por seus moradores mais antigos e que afetou a população como um todo com o desabastecimento de água, contaminação das águas da Lagoinha e que também provocou grande mortandade de peixes.

Demorou dias, muita gente sofreu por quase uma semana com a falta de água, que muitas vezes quando chegava às torneiras naqueles dias, vinha com cor, odor e gosto de fumaça. Nos dias que antecederam a chuva misteriosa, por toda a região o fogo ardia em chamas devastando a vegetação, seja ela áreas de pastagens, matas nativas, plantações e até ameaçando residências e tudo o mais que surgisse à frente das queimadas.

Foram dias de inferno no paraíso com cenário apocalíptico, primeiro com o céu encoberto pela densa camada de fumaça. A fuligem podia ser percebida por toda parte e a sequidão tomava conta de todo o ambiente. A chuva tão desejada para conter o fogo, veio. Mas trouxe consigo uma grande carga de poluentes que estava no ar. De repente, o dia se tornou noite. Aquela água preta que desceu do céu foi descrita pelos especialistas foi conseqüência das intensas queimadas que espalharam grande quantidade de partículas de fuligem espalhadas na atmosfera.

Naquela tarde que se transformou em noite, foi preciso acender as luzes dentro de casa. Nas ruas a iluminação artificial foi acionada mais cedo e quem estava no trânsito precisou ligar os faróis de seus veículos para prosseguir. E assim aquele dia entrou para a história. Nunca antes em São Sebastião do Paraíso havia sido registrado algo semelhante.

As conseqüências foram drásticas. Queda de árvores falta de energia elétrica por horas em algumas regiões da cidade e na zona rural. O pior que estava por vir foi a falta de água que para alguns moradores durou uma semana até que tudo fosse todo regularizado. Por dias o abastecimento ficou comprometido por ter sido afetado o sistema de captação, tratamento e distribuição do líquido precioso, em que muitos se deram conta, somente por sua ausência nas torneiras.

Foi um corre e corre para comprar e logo o comércio deu o tom pela oferta e procura elevando valores a preços exorbitantes. Buscar água das minas, prática tão comum no passado, voltou a ser solução para muita gente para atender as mais diversas necessidades. No entanto, nem todos tiveram a mesma sorte e houve quem precisou procurar atendimento médico em função de ter abastecido e utilizado de água contaminada com grande quantidade de coliformes fecais sendo, portanto, considerada imprópria para o consumo.

Na Lagoinha a enxurrada e as águas da chuva fizeram com que os níveis de oxigênio baixassem ou deixasse de existir ao ponto de provocar a morte dos peixes. Foram em vão várias tentativas de oxigenar a represa. Por fim liberou-se a captura dos peixes para serem transferidos a outros locais. Mesmo assim cerca de uma tonelada e meia de peixes mortos foi retirada do espaço. A Lagoinha com suas águas sujas e fétidas precisou ser esvaziada e já está sendo revitalizada pela Prefeitura que pretende reformá-la e devolvê-la à comunidade como um de seus mais importantes cartões postais da cidade.

Resiliência
O aquecimento global e as mudanças climáticas estão afetando a frequência e a magnitude dos fenômenos naturais. Esses eventos têm se tornado cada vez mais recorrentes no Brasil; ao mesmo tempo, a ocupação desordenada aumenta a fragilidade do meio físico e expõe um número significativo de pessoas ao risco geológico. O Serviço Geológico do Brasil já mapeou áreas com alto e muito alto risco de deslizamentos de terra, inundações, enxurradas e queda de rochas, em mais de 1.600 municípios brasileiros.

Para o geólogo do SGB-CPRM Thiago Dutra, construir cidades mais seguras é um desafio a ser alcançado a longo prazo. “Resiliência e redução de riscos de desastres devem fazer parte do planejamento urbano e das estratégias para o desenvolvimento sustentável”, afirma.  Para efetivação desse cenário, são necessárias consolidação de alianças interinstitucionais e ampla participação popular, o que está sendo fomentado pelo SGB-CPRM por meio de diversos projetos institucionais.

Em Minas Gerais já existem cidades que disponibilizam para a população, através de um aplicativo, um banco de dados georreferenciado do SGB-CPRM com todo o resultado dos trabalhos de setorização de risco. O objetivo é fomentar o senso coletivo de autoproteção na população que convive com esta realidade. Também em Minas Gerais, a Defesa Civil de algumas cidades já assinou o Certificado de Compromisso com a Resiliência aos Desastres, da ONU e, desde então, vem trabalhando em conjunto com a academia e com o corpo de bombeiros, para minimizar o número de desastres no município.

O projeto Café Geológico, apresentado semanalmente no canal TV CPRM no Youtube, também já debateu as cidades resilientes com representantes de outros municípios em diferentes estados do Brasil. O Café Geológico foi idealizado pelo Departamento de Gestão Territorial (DEGET) do SGB-CPRM, e tem apresentação e mediação do geólogo Thiago Dutra.

A MCR2030 é um lugar de encontro onde as cidades, as entidades participantes e as partes interessadas relevantes concordam em um propósito comum: tornar as cidades resistentes. É uma iniciativa global, com coordenação regional que facilita essas conexões entre as necessidades das cidades e os serviços, metodologias e ferramentas de entidades e indivíduos que trabalham na redução do risco de desastres e no fortalecimento da resiliência urbana. O objetivo é assegurar que as cidades estejam se tornando inclusivas, seguras, resilientes e sustentáveis até 2030, contribuindo diretamente para a realização do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável e de outras iniciativas globais, como o Marco de Sendai para Redução do Risco de Desastres, o Acordo de Paris e a Nova Agenda Urbana.

Ao aderir a MCR2030, o município se juntará a uma Iniciativa Global que oferece um roteiro claro para a resiliência. Formulado em três etapas, o movimento apóia as cidades ao longo da sua jornada, desde a conscientização até o planejamento e a implementação de ação de redução do risco de de-sastres. Através de uma abordagem colaborativa entre todas as partes interessadas, a iniciativa apóia a capacitação técnica da cidade, a colaboração entre os vários níveis de governo e promoverá parcerias estratégicas em escala com as entidades participantes,

Para participar é preciso se inscrever e identificar a etapa de resiliência em que o município se encontra para ter acesso as ferramentas e recursos específicos às necessidades. O segundo passo é enviar uma Carta de Compromisso que corresponde a esta etapa, usando o email mcr2030-amc@un. org e para a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (dag.sedec@mdr.gov.br).

A Carta também dever ser enviada na hora de se inscrever no Painel da Iniciativa MCR2030. Último passo é criar e completar o perfil local no Painel de Informação da MCR2030. Uma vez inscrito, basta fazer o download do certificado de adesão diretamente e de maneira autônoma na página, “Informações básicas sobre minha cidade”, em seu perfil.