PARAÍSO 200 ANOS

Zezinho peão e adestrador, desde menino “apaixonado por animais”

Por: Nelson de Paula Duarte | Categoria: Cidades | 26-10-2021 17:22 | 654
Zezinho e a Sapeca
Zezinho e a Sapeca Foto: Nelson Duarte

Se pessoas mais maduras em idade em Paraíso, forem indaga-das se conhecem José dos Reis Batista do Nascimento é possível que digam não saber de quem se trata. Mas se for dito que é o Zezinho do João Soldado, ou Zezinho Peão, a coisa muda. Mais novo dos 15 filhos do policial militar Sr. João Batista (João Soldado) e de Dona Benedita Silvestre, Zezinho está quase chegando aos 72 anos. Desde menino, conforme diz, “apaixonado por animais”, trajetória que o tornou conhecido como peão, e por sua habilidade como adestrador.

Seu tempo atualmente é dividido entre Monte Santo de Minas onde reside, e a fazenda Prata Baú, município de Vargem Bonita, na Serra da Canastra. Veio para Monte Santo para oferecer condições de estudo para os filhos. Se dependesse dele, já teria voltado de vez para a fazenda, pelo prazer que tem com a lida com o gado, com seus animais.

Nasceu em Itaú onde seu pai estava a serviço, mas 15 dias depois do nascimento sua família retornou a Paraíso. “Fui conhecer Itaú depois de adulto”, explica. “Família numerosa, muito unida. Eu era o santinho da turma”, conta.

“Minha mãe me contava que meu avô Francisco Silvestre de Paula (Chico Risada) gostava de amansar burros e eu vim do ventre de minha mãe com este gosto. Desde molequinho sou apaixonado por animais”, explica. Aos sete anos adquiriu uma égua, pago com economias feitas. “Minha mãe me dava dinheiro para comprar puxas na escola, mas eu guardava, sempre fui econômico”. 

Quando disse a meu pai que havia comprado o animal ele quis saber como. Fui com ele até o senhor Fernando Morige que confirmou ter me vendido, e recebido. A égua era brava. Morávamos rua Buritis (atual Coronel José Aureliano), perto do Senhor José Pereirinha, e tínhamos Senhor Chiquinho Lima como vizinho. Montei na égua e ela me deu um tombo. Senhor Chiquinho me pegou pela camisa e disse que eu iria me machucar. Pedi a ele que não contasse para meu pai, senão nunca me deixaria mexer com cavalos. Até hoje nunca parei.

É um dom virou que profissão. Mesmo em período em tive atividades para fazer, como estudar, servir o Exército, nunca parei. Trabalhei como vigilante no Banco Comércio Indústria (depois se tornou Banco Nacional). Mas levava meus animais e os deixava debaixo de árvores ao redor da igreja matriz. Vendendo e comprando.

Zezinho sempre era convidado a participar de desfiles cívicos, cavalgadas, além de outros eventos, muitos deles no lombo de um boi chamado Pantaneiro, que de tão dócil foi montado até por crianças.

Além de seus próprios animais ele passou adestrar para outras pessoas. “Paraíso cresceu, hoje não há mais casas com grandes quintais. Quando morávamos na rua Buritis era um quarteirão de terreiro, meu pai plantava verduras, criava porcos, e era lá que eu fazia adestramentos”, explica.

“Eu sonhava em ter um pedacinho de terra. Comprei uma chácara no bairro Lagoa Preta, minha primeira propriedade. Para lá levei um cavalo chamado Bailado, que adquiri do senhor José Dramis. Eu o amancei. Tinha também uma égua. Era um ranchinho com a Mão de Deus me guardando e conduzindo. Eu não sabia fazer nada. Minha mãe e meu irmão Wilson uma vez por semana iam lá levar comida. Para tratar dos animais eu ajudava um fazendeiro tirar leite de manhã, em troca de um balaio de capim. Eu me casei, constituí família. Cheguei possuir 380 alqueires de terras na região da Serra da Canastra. Hoje tenho uma menor, mas ficou grande para mim”.

 

Montarias

De sua vivência como peão, Zezinho conta que Dr. José Brandão tinha uma tropa que utilizava em carroção. “Nos finais de semana Tonico Biriré que era funcionário dele, fechava a tropa no curral para peões montarem. Íamos, o Dito Peão, Lelei, Pedrinho Vanoni e eu, o menor da turma pedia ao senhor Tonico para montar em uma mula. Fui conversando com ele até que um dia permitiu. Com isso passei amansar a tropa do Dr. José Brandão. Não sou mais que ninguém é o dom que Deus me deu”.

Passagem também lembrada foi quando foi procurado pelo Dr. Eduardo Amaral, acompanhado pelo Dão Peão, que era seu administrador. Ele me convidou a ir à sua fazenda, onde ao chegar vi dez burros fechados. Quero vender pra você, disse Dr. Eduardo, e lhe respondi que não podia comprar, pois a pedida foi o equivalente a cinco mil Reais.

Conversa vai, conversa vem, me disseram: “Peão que vem aqui, não sai sem montar, menos nesse burro que não conseguimos amansar nem em carroção, pois até jogou uma tropa n’água”, explicaram apontando para um animal. Foi o que lacei, arreei, e saiu pulando comigo. Depois de três voltas no curral enfiou a cabeça debaixo de porteira feita com canos grossos, de encaixar, a derrubando. O burro saiu comigo para o pasto. Foi e voltou pulando até bater a cabeça num palanque de madeira e cair. Doutor Eduardo e Dão Peão estavam emocionados.

“Pedi cinco mil, vou lhe fazer por quinhentos Reais cada um, e você me paga quando puder. Levei a tropa para Capetinga, vendi e sobrou dinheiro, que ajudou no começo de minha vidinha”, afirma Zezinho.

Montarias em circos também fizeram história, como no Circo do Faixa Preta, que tinha um burrinho chamado Serelepe. “Montei nele trinta e três vezes. Ele me conhecia e quando eu chegava na arena o burrinho chorava. Eu não caía dele. Não me deixaram montar na potranca Fuzarca ou Sereia, como também era chamada, porque eu era muito moleque”.

Depois veio a mula Granfina. O Nonô Calixto foi à minha casa e me perguntou se eu queria “matar a minha paixão de montar naquela afamada mula”, e explicou que a Granfina tinha chegado a Paraíso. Meu pai estava em Belo Horizonte, e minha mãe mandou o Wilson meu irmão me trancar em um quarto. Porta e janelas eram de madeira, e foram pregadas, para eu não sair. Mas por volta das 6 horas saí, passei na casa de minha tia Fióca,  tomei um gole de café.

O circo estava armado no Largo Nossa Senhora Aparecida, perto de onde ela morava. Tia Fióca falou que estava sendo anunciado que eu ia montar, e me alertou: “A mula vai te matar. Tia não vai, mas se isso acontecer, morro feliz. Eu estava com 17 anos e parei no lombo da Gran-fina. Tinha muita força, gostava de academia (e pratico até hoje)”.

Depois veio o Circo do Palito com o boi Baiano que tinha um treinador por nome de Mazaropi, vinha de Batatais. Ele aguentava um pulo e meio. Eu aguentei 18 pulos. Eu era valente, recorda Zezinho.

Passei a ter meu circo de touradas, juntamente com meu irmão Wilson e meu compadre Hercílio. O circo foi montado em Santo Antonio da Alegria. Chegou uma senhora e disse. Senhor Wilson, dizem que vocês têm um peão muito bom, queria que ele montasse meu cavalo Mandarin. Alertou e repetiu que ele “era um bicho feio”. Chegamos a Itamogi à noite. Fomos eu, Wilson, Maurício Quelé, João Goiaca, Messias (de Ilicínia) e Aderbal de Freitas Melo que levou o cronômetro.

Meu irmão assinou um termo de responsabilidade. Pedi que pudesse usar o estribo. Foram muitos pulos, em poucos segundos. Eu estava caindo dele quando o cavalo parou e pulei. Já na arena, caí cinco vezes. Fiquei tonto de tanto o animal rodear. No dia seguinte com a intenção de novamente montar voltei, mas estranhamente não havia circo nem mulher, nem cavalo. Peço a Deus que me perdoe de comentário fiz certa vez para minha mãe, e hoje não faria mais, depois que conheci a bíblia. Foi nos anos 70. Eu tinha montado em um cavalo no Barro Preto na fazenda do Dr. Sebastião Montans. Ele derrubou muitos peões e eu parei nele. Aos 20 anos achava que podia fazer de tudo. No entusiasmo, falei o que não devia”.

Zezinho participou do mais famoso rodeio do Brasil. “Em 1970 eu e Maurício Quelé montamos no rodeio em Barretos. Ganhei um Volks velho, que era o prêmio para o campeão. Se fizesse hoje, o que fiz naquele tempo, eu estaria milionário. Tenho vários troféus, mas naquela época não tinha premiação valorosa em dinheiro, afirma.

No dia 7 de Setembro de 2019 Zezinho esteve em Ribeirão Preto. Visitou um primo, onde ele realiza rodeios. Foi reconhecido por um senhor (Marcelão) proprietário do cavalo Bola de Fogo e a da égua Bola de Neve, que lhe pediu, montasse neles. “Meu primo Euripinho me aconselhou não montar, explicando que eram animais usados em rodeios profissionais. Você está velho, vai embora, disse-me”.

Não desisti. Quando me anunciaram levei uma vaia. Arreei o cavalinho e foram 23 segundos de pulos”. Minha filha que estava presente lembrou-me que “estava na hora, eu devia parar com montarias”. Respondi que quando eu fizer 72 anos em janeiro, quero fechar com chave de ouro a fase de montarias.

Sobre o dom de adestrar, Zezinho diz usar um método racional que não judia da criação, e o utiliza para grandes e pequenos animais. Recentemente postou em rede social um leitão que obedece aos seus comandos. “O adestramento é feito com conversa e carinho. Cavalos conversam comigo. Estou ensinando um potro que sobe em um banco com as quatro patas, e também deita no chão”.

Após falar ao Jornal do Sudoeste, Zezinho desceu da carroceria de sua caminhonete a “Sapeca”, cachorra de dois anos que vem sendo adestrada por ele. Colocou à distância alguns objetos que lhe foram trazidos um a um, além de outras peripécias. Sapeca só faltou falar.

“Alguns animais são teimosos. Cachorros que a pessoa tem há um dois anos, cheios de defesa, não é impossível, mas ser corrigidos é difícil. O mesmo acontece com cavalos. Tudo é conseguido com experiência e sabedoria”, explica.

“Meu avô era um homem de muita história, pouco recurso financeiro, muito querido. Tinha três panelinhas de ferro onde eram feitas refeições para ele e minha avó Maria. O interessante é que se chegassem dez pessoas iriam comer, era um mistério de Deus, uma multiplicação, mão de Deus cuidando das pessoas”, disse ao comentar sobre seu avô, Francisco Silvestre de Paula, o senhor Chico Risada.

Zezinho disse ter sido providencial sua vinda para Monte Santo de Minas, onde se tornou Adventista do Sétimo Dia, o que lhe levou ao estudo e divulgação das escrituras sagradas. Vivo a bíblia. Onde nos encontrarmos você verá meus bolsos cheios de folhetinhos e panfletos, com base no “ide e pregai o evangelho”, afirmou. Uma vez questionado sobre as aventuras de suas montarias, respondeu que já leu a bíblia três vezes, de capa a capa, e não encontrou nela, algo que proíba.