196 ANOS PARAÍSO

Páginas de nossa História: 15 de Agosto

Por: Conceição Ferreira Borges | Editoria: cidades | 23/10/2017 | Visualizações: 671

A procissão chegava a Igreja e uma multidão se concentrava no Largo para assistir - Foto de Reprodução

Conceição B. Borges Ferreira (Sãosinha) – Historiadora – Jornalista


15 de agosto, dia da Festa de Nossa Senhora da Abadia. Cinco horas da manhã. O sol ainda escondido, já começava a iluminar o horizonte como um caleidoscópio de mil cores.
Naquela hora poética a Banda de Música começou a percorrer as ruas da cidade tocando músicas lindas e envolventes, foguetes explodiam no ar, era a “alvorada”, um misto de devoção, beleza e encamentamento, anunciando o importante e grande acontecimento do dia.
As pessoas acordavam felizes, vestiam-se às pressas e saíam para ir atrás da Banda de Música. De manhanzinha chegavam à casa do festeiro, toda enfeitada com bandeirinhas de papel de seda, de todas as cores, sendo recebidos com muita alegria e muitos foguetes. Todos participavam do café da manhã com a família do festeiro.
O cheiro gostoso do café quente e forte, as roscas grandes e macias, as broas e biscoitos, era tudo de bom.
Os músicos e as pessoas que acompanhavam a alvorada voltaram para suas casas à espera da hora da solene procissão
Na Mocoquinha o dia da festa era tão importante como o dia de Natal. As famílias serviam um almoço especial. Todos queriam ficar elegantes, bonitos e chiques.
As mulheres caprichavam nos modelos dos vestidos. Usavam colares, pulseiras e brincos de contas coloridas. Os homens não dispensavam o chapéu e a gravata.
Na Mocoquinha moravam muitas famílias imigrantes, italianas, portuguesas, espanhóis, sírios. Lá encontraram amizade e trabalho.
As mulheres quando tinham joias usavam, eram relíquias de família que passavam de geração a geração, vindo muitas vezes de sua terra natal que ficou lá longe, depois do mar.
Os homens também usavam o que tinham de melhor. Os imigrantes que moravam na Mocoquinha sempre tinham seus relógios de bolso com correntes de ouro, lembrança de sua família que estava na sua pátria distante, e neste dia eram retirados dos estojos, onde ficavam guardados o ano inteiro.
Quatro horas da tarde. O povo todo estava em frente à Igrejinha. Abria procissão homens usando uma espécie de capa comprida, vermelha, sobre a roupa comum. Nas mãos, lanternas de metal com cabos longos. Seguiam seus passos quatro de cada lado e um no meio da rua.
A procissão saía da Igrejinha, passava em toda extensão da rua Riachuelo, hoje Professor Alencar, até a rua Barão do Rio Branco, hoje Dr. Placidino Brigagão, andando um quarteirão nessa rua subia a rua Paraíso, hoje avenida Angelo Calafiori. Por a procissão passava as ruas eram enfeitadas com bandeirinhas de papel de seda, verde, azul, amarela, vermelha, rosa, enfim, de todas as cores, sendo penduradas com barbantes.
As mulheres da Mocoquinha ficavam semanas e semanas fazendo as bandeirinhas sob o comando dos irmãos Gabriel Wenceslau e Joaquim Wenceslau, sendo eles que enfeitavam as ruas, ajudados por toda a Mocoquinha entusiasmada.
Uma beleza invulgar nas procissões eram os anjos. Crianças cumprindo promessas, ou simplesmente queriam ser anjos. Com camisolinhas feita de cetim em tons suaves, branco, azul, rosa, verde, asas branquinhas, feitas de penas de patos era visão angelical.
Quem confeccionava as asas dos anjos era Dona Josina. Quase toda criança da Moco-quinha foi anjo na festa de 15 de Agosto.
Depois da procissão os anjos recebiam um bonito cartuchinho cheio de doces, especiais para eles. Lembranças inesquecíveis para aquelas crianças.
Seguiam as Virgens. Meninas de 12 anos, vestidas de branco, usando véu branco e grinalda. Vestiam-se na casa de Dona Isoleta Avelar Provenzano, indo juntas para a Igreja antes da procissão.
Seguindo as Cruzadinhas, meninas que pertenciam às Cruzadas, uma Associação religiosa juvenil. Usavam vestidos brancos, e fita amarela no pescoço.
Seguindo, uma beleza indescritível, as Filhas de Maria. Moças vestidas de branco, usando véu branco e no pescoço fita larga, azul celeste, com a medalha de Nossa Senhora. Iam em duas filas no meio da rua. Na frente delas o estandarte, levando duas fitas, seguradas por duas meninas anjos.
Seguindo iam as Zeladoras, senhoras casadas, usando vestidos azul marinho, véu preto na cabeça e no pescoço uma fita larga vermelha com um emblema do Sagrado Coração de Jesus. Levavam o estandarte vermelho com estampa de Jesus e as fitas que desciam dos lados eram seguradas por dois anjos lindos.
Depois que foi fundada a Irmandade de Nossa Senhora das Dores das Irmãs de Jesus Crucificado, na década de 30, composta por homens lque usavam um emblema na lapela e mulheres usando uma fita roxa estreita no pescoço participavam de todas as procissões na cidade. Nas festas da Abadia, iam na frente de todas as Associações.
Os Vicentinos sempre foram uma presença querida em todas as procissões de Nossa Senhora da Abadia. Depois que foi fundado o núcleo da Mocoquinha a sua participação foi marcante.
A Liga Católica, Associação composta de homens profundamente religiosos sempre levou às procissões sua fé marcante, comparecendo usando seu distintivo.
Em seguida o andor de Nossa Senhora da Abadia ornamentado com carinho e arte. Cada detalhe inspirava fé e devoção.
A senhora Osvalda Ozelin Bícego ornamentou por mais de trinta anos, com muita ternura o andor de Nossa Senhora da Abadia.
Naquela época, aqui, quase não havia flores naturais e ela com seu talento artístico fazia as flores com cetim e o andor ficava gloriosamente florido.
O andor de Nossa Senhora da Abadia era carregado por homens da Mocoquinha, que iam se revesando.
Uma pessoa sempre notada durante muitos anos carregando o andor de Nossa Senhora da Abadia foi o senhor Vicente Braga. Quando ficava cansado outra pessoa tomava seu lugar e era só descansar voltava novamente a carrega-lo.
Atrás do andor o Pároco da paróquia, debaixo do pálio, que era carregado por homens, quase sempre autoridades locais. Em seguida a Banda de Música dava todo encanto àquele dia inesquecível. Uma multidão atrás da banda, sempre acompanhou com fervor, Nossa Senhora da abadia pelas ruas da Mocoquinha.
Um dos mais fervorosos devotos foi o italiano Braz de Belo, casado com Dona Angelina Lauria de Belo. Foram feteiros divrsas vezes e marcaram época.
A procissão passava em frente à sua residência que era uma casa grande na avenida Angelo Calafiori, parava alguns minutos e na rua Dos Italianos, que era uma ruazinha em frente a sua casa, uma bateria de fogos saudava Nossa Senhora da Abadia, com vinte e uma salvas. Todos se emocionavam.
A procissão chegava a Igreja e uma multidão se concentrava no Largo para assistir a solene missa campal e bênção que era assistida com devoção.
Após era sorteado o festeiro do ano seguinte. Todos queriam suplantar o brilho do ano anterior.
Só, então, o andor de Nossa Senhora da Abadia entrava na Igreja, colocado com carinho em seu lugar de honra. Começava a última noite de leilão e quermesse. O povo já começava a pensar na festa do próximo ano.
O tempo passou, a cidade cresceu, a Mocoquinha transformou-se em outra cidade dentro de São Sebastião do Paraíso. Felizmente não passaram as festas de Nossa Senhora da Abadia, embora sem aquele encanto antigo, mas cada ano tem seu encanto especial. O dia da festa quase não é mais em 15 de agosto, devido a retirada do feriado religioso. É sempre em um domingo, próximo ao dia de Nossa Senhora da Abadia.
A procissão é pequena e simples, devido ao grande trânsito no local.
A festa de Nossa Senhora da Abadia enriquece nossa história religiosa, social e cultural, tão rica em fé, ternura e coisas belas.
A Mocoquinha e suas festas são partes importantes no nosso maravilhoso Paraíso.


CONCEIÇÃO B. BORGES FERREIRA (SÃOSINHA), membro da Academia Paraisense de Cultura.

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