ELY VIEITEZ LISBOA

O mito da Perfeição

Por: Ely VIeitez Lisboa | Editoria: cultura | 13/01/2018 | Visualizações: 4398

- Foto de Reprodução

A assertiva que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus já foi testada por filósofos e pensadores. Basta, no entanto, uma simples análise para derrubar tal afirmação. Há uma tendência humana de simplificar coisas complexas. Na Idade Média acreditava-se no binômio bondade e maldade, de maneira estanque. Os seres humanos eram dicotomicamente, bons ou maus, angélicos ou diabólicos. Pascal, filósofo francês do século XVII, derrubou esse simplismo. A descoberta de tal filosofia, longe de denegrir o ápice da Criação, acentuou seu valor. Com o livre-arbítrio e trazendo em sua feitura bondade e maldade, o homem que consegue optar pelo ser bom, é mais digno, vale mais, é superior. 
O preâmbulo é para lembrar que a condição humana é complexa e falha. Tentar vencer os instintos e fraquezas é luta árdua, contínua. E o mais trágico: como ser perfeito? Pode-se aspirar à perfeição?  
Aí está, pois, o grande impasse. Criatura imperfeita, os homens desejam a perfeição, como uma espécie de destino maior, excelso. Teses já foram escritas sobre tal tema. Mencionemos, contudo, uma passagem de um livro pretensamente escrito para jovens, o delicioso e esquecido Kalum, de Menotti Del Picchia. A narrativa de aventuras e ficção é rica, com uma linguagem depurada. Há um trecho na trama que é uma lição profunda e sempre atual. No reino de Elinor, só os homens trabalham e envelhecem. Como sempre, o ócio e a perfeição física das mulheres acabam por torná-las superficiais, inconsequentes. 
O trecho do notável livro dignifica o trabalho, a luta; dificuldades, percalços alimentam, são o sal da vida. A perfeição, a riqueza, a falta de objetivos são ingredientes perniciosos, letais à felicidade humana. Talvez, por exemplo, isso explique por que, em países sem pobreza, de grande renda per capita, como na Suécia , o índice de suicídios é altíssimo. O Brasil, com seus renitentes e endêmicos problemas socioeconômicos, jamais correrá esse risco...
Nosso país, todavia, é a antítese da Terra de Elinor. Não há ócio nem perfeição. É um fremir entusiasmado, de um povo que, apesar de tantas desilusões socioeconômicas e políticas, ainda é capaz de sonhar. Ufanista e ingênuo, agarra-se às velhas crendices  que Deus é brasileiro, acredita ainda que aqui se tem o melhor futebol do mundo, e todos os anos, mesmo que tenha passado por mazelas várias, brinca feliz e catarticamente nos dias de Carnaval, em uma apoteose. Na quarta-feira não experimenta tédio. Parte novamente para sua luta, levando na mão direita somente hipóteses e na esquerda, um mínimo de possibilidades. E ainda sorri e crê no velho aposto: Brasil,  país do futuro. 


 


(*) Ely Vieitez Lisboa é escritora.


E-mail: elyvieitez@uol.com.br


 

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