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Heloísa Aguieiras: uma entusiasta do jornalismo e apaixonada por registrar histórias

Por: João Oliveira | Editoria: entretenimento | 03/02/2018 | Visualizações: 3286

Helô deixou Paraíso em abril de 2017 e vive hoje em São Paulo - Foto de Helton Lucinda

A jornalista Heloísa Rocha Aguieiras, Helô para todos que a conhece, é uma profissional que fez sua história em São Sebastião do Paraíso durante os anos que atuou com afinco e dedicação à profissão em nosso município. À frente do seu tempo e sempre com o espírito de uma adolescente rebelde, conduziu sua carreira sempre pautada pela seriedade, compromisso e amor, narrando histórias de luta, superação e algumas bem polêmicas registradas nos anais do Jornal do Sudoeste, onde integrou a equipe durante muitos anos. Hoje, aos 51 anos, Helô vive em São Paulo com o marido, o jornalista Helton Lucinda Ribeira, e a mãe, Naiá da Rocha Aguieiras, que assim como a filha é inteligente e muito antenada. Helô perdeu o pai em dezembro de 2014, aos 86 anos, uma figurinha que ela define como vaidoso, elegante e muito amoroso. Filha caçula do casal, ela tem outros dois irmãos mais velhos, o Oswaldo Aguieiras e Ricardo Rocha Aguieiras. É com muito carinho que Helô, que conduziu esta coluna durante muito tempo, hoje volta a ela para deixar registrada a sua história.

 

Jornal do Sudoeste - Onde morou durante a infância e como foi essa fase em sua vida?
Heloisa Rocha Aguieiras - Sou nascida em Brasília (DF), minha família toda é de São Paulo, para onde voltaram quando eu estava com dois anos de idade e onde fiquei até os nove, depois disso não paramos mais. Meu pai era gerente comercial de concessionárias de ônibus e caminhão, e mudava sempre que uma concessionária abria ou necessitava de um novo gerente. Assim, morei em Belo Horizonte, Patos de Minas, Poços de Caldas, Juiz de Fora, Campinas, Franca, Aguaí, Passos e finalmente São Sebastião do Paraíso. Voltei a morar em São Paulo em abril do ano passado, mas meu coração mineiro ficou aí.

 

Jornal do Sudoeste - Como foi sua formação acadêmica e seu ingresso à faculdade?
Helô – Foi um tanto exaustivo. Na ocasião, com 18 anos, eu morava em Belo Horizonte e ingressei em uma faculdade particular, a Newton Paiva, em Comunicação, com opção em Relações Públicas. Mas meus pais, em mais uma de suas mudanças, foram morar em Juiz de Fora. Fiquei mais um ano estudando na capital mineira, mas foi ficando muito caro. Por sorte abriram vagas para transferência na UFJF, fiz um processo seletivo, passei e me transferi. Como os currículos, cargas horárias e créditos de matérias eram muito diferentes entre as duas faculdades, fui aproveitando os horários vagos para complementar com outras matérias, então me formei em Jornalismo e depois fiz Rádio e TV, desta só não entreguei o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Foi muito exaustivo por isso, tive que fazer muitos créditos adicionais, foi muito confuso; além disso, fui a última turma do currículo antes de sua reforma na UFJF, então foi complicado, eu tinha que passar em todas as matérias, pois elas não seriam mais oferecidas dali para frente. Mas sobrevivi e foi uma das épocas mais maravilhosas de minha vida.

 

Jornal do Sudoeste - Por que decidiu estudar Jornalismo, o que a motivou?
Helô - Eu sempre tive uma quedinha pela escrita. No terceiro ano do primário, hoje Ensino Fundamental, minha professora chamou minha mãe na escola e disse que meus pais precisavam me incentivar porque eu seria uma escritora; acredito que ela tenha achado isso por causa de minhas redações, que à época chamávamos de “composição”. O tempo passou e eu tinha certeza que seguiria uma profissão ligada à escrita, então quis a Comunicação.

 

Jornal do Sudoeste – Você tinha o desejo em fazer outra faculdade?
Helô – Antes da Comunicação nem pensei em fazer outra faculdade. Hoje tenho vontade de fazer uma especialização, mestrado e doutorado, ou outro curso ligado à Literatura. Queria muito fazer uma especialização em jornalismo literário, acredito que seria muito feliz nessa área porque também gosto de ler. E se fosse “afunilar” isso, talvez algo em literatura de língua portuguesa, onde acredito que atuam os melhores autores, vivos e mortos.

 

Jornal do Sudoeste - Depois que se formou, qual foi o seu primeiro emprego e por onde passou durante toda a sua caminhada de jornalista?
Helô – Tenho vontade de rir quando lembro, mas na época foi de chorar. Meu primeiro emprego depois de formada foi como vendedora de móveis, em Campinas, onde tinha ido morar (Móveis Alencar, bastante chiques). Eu não havia conseguido emprego e precisa começar a trabalhar logo. Mas, um tempo depois fui trabalhar na Cooperativa de Holambra, setor de plantas e flores, no departamento de marketing, o que tinha mais a ver com a minha formação. Daí, a carreira começou de fato. Fui para Passos, trabalhei fazendo o fechamento de edição na Folha da Manhã, tive uma empresa de Comunicação em sociedade com uma grande amiga, a Vanessa Braz Cassoli, com diversos clientes para os quais fazíamos, principalmente, jornais empresariais (house organs). Voltei para São Paulo, fui trabalhar com textos em uma editora de livros, que infelizmente fechou. Depois para Franca, onde meus pais estavam vivendo e fui ser repórter do Jornal Comércio da Franca e de lá, fui morar em Paraíso.

 

Jornal do Sudoeste - Como conheceu São Sebastião do Paraíso e como foi a sua experiência no jornalismo aqui?
Helô – Ah! Essa questão me faz chorar de saudades, de tudo! Eu estava fazendo um jornal empresarial para a Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Franca, mas o meu contrato havia terminado. À época um jornal de São Sebastião do Paraíso anunciou nos classificados de um jornal francano, que estava precisando de repórter, era o Jornal Diário, recém-inaugurado em Paraíso, de propriedade do advogado João Lister Pereira. Mandei meu currículo, eles me chamaram para uma entrevista em um sábado. Eu me apresentei para a editora chefe, Joseti Alves e para o João Lister. Resultado: Acabei ficando e no mesmo dia comecei a trabalhar, nem voltei mais para Franca. Meses depois fiz minha mudança definitiva para a terrinha. Era 5 de maio de 2005. No Jornal Diário fiquei por um ano, mas ele fechou. Pedi uma oportunidade na redação do Jornal do Sudoeste, no que fui prontamente atendida por seu editor-proprietário, Nelson de Paula Duarte, o Nelsinho, que eu chamarei carinhosamente de “chefe” pelo resto de minha vida, por ter um sentimento de gratidão imenso por ele. Nelsinho sempre foi um mentor, um exemplo a seguir. O “JS” me abriu portas ótimas; por causa do meu trabalho como repórter fui contratada por um período como freelancer para fazer a Assessoria de Comunicação e o jornal empresarial da Associação Comercial, Industrial, Agropecuária e de Serviços de São Sebastião do Paraíso (Acissp). Saí do jornal e fui trabalhar como repórter também no extinto Jornal A Gazeta; fui assistente de Comunicação na Cooparaíso; fui assistente de Comunicação no escritório do deputado Carlos Melles, onde trabalhei auxiliando o assessor de Comunicação do deputado, Paulo Delfante; fui contratada pela Acissp; e acabei voltando ao Jornal do Sudoeste.

 

Jornal do Sudoeste - Você trabalhou muitos anos no “JS”, o que representou para você esta fase?
Helô – Representou, acima de tudo, aprendizado constante. Aprendi algo novo todos os dias, o que fazer e o que não fazer no Jornalismo. Tive a oportunidade de fazer matérias lindas, importantes, muitas reportagens que me fizeram uma profissional muito melhor. Meu sentimento é mesmo de profunda gratidão e tenho uma saudade enorme do meu trabalho aí.

 

Jornal do Sudoeste - Existe alguma matéria que a tenha marcado muito? 
Helô – No Jornal do Sudoeste foram inúmeras matérias que gostei muito de fazer e que me marcaram. No primeiro período em que trabalhei no Jornal, acompanhei o caso do Hospital Sagrado Coração e o trabalho da Polícia Federal, que desencadeou um processo e na apuração de um desfalque de R$ 5 milhões contra o Sistema Único de Saúde (SUS). Na segunda fase em que trabalhei no Jornal, anos depois, a matéria que mais me marcou foi a de uma senhora, dona Maria das Dores, que encontrou o filho, após 41 anos. Essa matéria nasceu de um e-mail que o jornal recebeu, enviado pela nora dessa senhora e daí, depois de um trabalho de pesquisa, feito com muito cuidado para não ferir os envolvidos, conseguimos publicar duas matérias sobre esse reencontro que mudou a vida dessas famílias. Dona Maria das Dores ainda me encontrou em outras ocasiões para agradecer a mim e ao Jornal o fato de ela ter ganhado uma família nova, com dois netinhos. Foi tudo muito emocionante. Antes disso, no Comércio da Franca, fiz a matéria que denunciou o abuso de dois padres, que eram irmãos, que haviam engravidado duas moças, com pouco tempo de diferença entre um caso e outro. À época, consegui a admissão do bispo, Dom Diógenes, porque até então a Igreja estava tentando escondê-los. Fiz também uma matéria especial sobre os bastidores de um circo famoso que estava na cidade, fiquei um dia inteiro entre os trailers dos artistas, entrevistando um a um, acompanhando o trabalho de preparação do espetáculo e os ensaios. Outra, muito marcante para mim, foi a visita em um presídio feminino, na região de Franca, onde passei o dia dentro da cela conversando, entrevistando e conhecendo as histórias das detentas.

 

Jornal do Sudoeste - Qual trabalho foi o que você mais gostou de fazer e qual foi o mais difícil?
Helô – Isso é muito difícil de responder. Gostei muito de fazer todas essas matérias que mencionei e tantas outras. Acompanhar o dia de investigação da Policia Federal dentro do Hospital Sagrado Coração envolveu muita adrenalina e eu sabia que o assunto era de extrema seriedade, então eu tinha que fazer uma apuração rigorosa para não errar nas informações, afinal envolvia muita gente. A matéria do encontro de dona Maria das Dores com seu filho foi emocionante, bonita e sei que, de alguma forma, o JS e eu fomos responsáveis por algo profundamente importante na vida dessas pessoas. Acredito que a mais difícil foi a dos padres, porque conseguir que o representante maior da Igreja na cidade admitisse o fato e isso foi fundamental para denunciar o que estava acontecendo. Ainda acompanhei o desenrolar dos fatos, que foi posteriormente o padre José Geraldo admitir o que havia ocorrido, aí tudo se complicou, porque o gravador falhou, não consegui gravar o que ele me disse sobre o assunto, o Jornal Comércio da Franca, eu e a equipe tivemos que nos virar para conseguir provas, enfim, acho que essa foi a mais difícil.

 

Jornal do Sudoeste - Você conheceu seu marido ao longo dessa luta no Jornalismo, como foi isso e o que ele representa hoje para você?
Helô – Ele foi meu chefe na redação da Folha da Manhã, em Passos, nos idos de 1998. Naquela época fomos apenas bons amigos, mudamos de cidade logo depois e passamos a ter pouco contato, via internet. Ele se mudou para São Paulo, passou em um concurso para ser Assessor de Imprensa do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra, onde está até hoje), eu fui para Paraíso. Os anos se passaram e acabamos tendo uma conversa virtual, quando ele me contou que havia ficado viúvo fazia apenas alguns meses. Nos reencontramos, eu com a intenção de dar apoio após a sua perda, fomos conversando, a conversa virou namoro, que virou casamento. Ele é um profissional preparadíssimo, um exemplo de jornalista para mim. Sempre me apoia e incentiva em tudo que quero fazer, me empurra para frente. Foi meu grande amparo na morte de meu pai ao fim de 2014, é hoje um parceiro incrível nos cuidados com minha mãe, que mora conosco. Ele é, sem dúvida, a pessoa mais importante da minha vida. 

 

Jornal do Sudoeste - O que mais marcou você em Paraíso durante o tempo que viveu aqui?
Helô – Eu sempre brinco que o grande culpado de eu amar tanto Paraíso é de João Lister, que me deu o primeiro emprego na cidade e abriu as primeiras portas. Como eu disse também, o Jornal do Sudoeste me propiciou grandes oportunidades. Passei a ser uma profissional respeitada em outros meios por causa do meu trabalho como repórter. Acredito que foi isso que levou a vice-prefeita, Dilma de Oliveira, à época vereadora, a me indicar para receber o título de cidadã honorária paraisense, o que foi aprovado por unanimidade por seus pares. Graças a isso, hoje sou uma paraisense! Também fui homenageada pela Câmara, nessa gestão de Marcelo Morais, em reconhecimento ao meu trabalho como jornalista. Tudo isso me marcou, mas ainda, o que mais me marcou foram as amizades que fiz. São tantas pessoas especiais, que nem sei mensurar, mas sei que ficarão de alguma forma comigo.

 

Jornal do Sudoeste - São Paulo ou São Sebastião do Paraíso?
Helô – Acho que nunca pensei tanto para responder uma pergunta. Sou uma pessoa que valoriza muito o presente, afinal é no hoje que vivemos e meu hoje é em São Paulo. É uma cidade linda, que amo, que proporciona fazer muitas coisas diferentes e boas, onde o conhecimento acontece a todo o momento, só não se apropria dele quem não quer. Paraíso é a terrinha do coração, onde me encontrei como pessoa, onde melhorei como ser humano, me realizei como profissional e estive cercada de pessoas importantíssimas para mim, que me fazem falta, atualmente.

 

Jornal do Sudoeste - Você é muito apegada aos seus pais, o que pode dizer sobre eles?
Helô – Meu pai trabalhou até pouco tempo antes de morrer, vendia assinaturas do Jornal do Sudoeste e até aos 86 anos visitava clientes, andava pela cidade, sempre muito elegante e simpático. Com meus amigos fazia piadas infames, tinha um senso de humor que o fazia ser uma figura ímpar. Era tão vaidoso, que quando moço ganhou o título de um dos dez mais elegantes da Ford, empresa automobilística onde trabalhava. Foi o melhor pai do mundo para mim, me ajudava em tudo, me socorria financeiramente quando podia, me deu formação, e estava sempre fuçando em minha casa para consertar cabo de panelas, tomadas, instalar cortinas e pendurar quadros. Essas eram ocasiões em que ele ia à minha casa, enquanto eu trabalhava, tomava uma lata da minha cerveja e ainda deixava um bilhetinho: “não tinha queijo, assinado – seu único pai”. Era esse o seu jeito de fazer graça. Minha mãe nunca teve muita saúde. O reumatismo foi lhe impondo uma série de dificuldades e hoje ela usa bengala para poder se locomover. Passamos com ela momentos muito difíceis, quando teve que fazer uma mastectomia por causa de um câncer na mama esquerda, depois em uma cirurgia de catarata perdeu a vista direita e há pouco tempo descobriu-se cardíaca, o que inspira cuidados. Mas se mantém lúcida, utilizando sua inteligência incrível, faz muitas tarefas diária sem depender de ninguém e é uma pessoa admirável. Foi muito prendada, excelente costureira e cozinheira. Vasco Caetano Vasco, o designer do Jornal do Sudoeste que o diga, pois usufruiu de muitos bolos que ela fez para ele.

 

Jornal do Sudoeste - Você é uma mulher muito engajada nas causas todas (LGBTQ+, defesa dos direitos da mulher, dos animais, políticas). Você sempre teve esse espírito contestador?
Helô – Sou 11 anos mais nova do que meu irmão que atualmente não tem mais contato comigo, porém ele foi um grande professor nessas questões. Foi ele quem me ensinou o que era LGBTQ+, tanto que por oito anos consecutivos eu o acompanhei nas Paradas Gays, aqui em São Paulo. Aprendi o que é a luta contra a homofobia. Nos meus 14 anos, ele me presenteou com um livro da escritora feminista francesa Anais Nin e de lá para cá aprendi também o quanto a mulher sempre foi massacrada pelo sistema sexista. A maturidade me trouxe outros conceitos, minha formação foi se complementando e minhas lutas se ampliando. Eu detesto qualquer forma de exclusão quando se trata de pessoas e odeio qualquer manifestação de crueldade, por mínimo que seja, quando se trata de seres que não podem se defender. Formei meu espírito contestador e ele anda mais vivo do que nunca.

 

Jornal do Sudoeste - O que a Helô de hoje tem a dizer para a Helô do passado?
Helô – Putz, mulher, como você engordou! E também: Nossa mulher, como você amadureceu.

 

Jornal do Sudoeste - Qual o balanço que você faz da vida hoje e o que você espera para o futuro?
Helô – As tantas mudanças de cidades que aconteceram na minha vida me engrandeceram muito, com as inúmeras experiências diferentes que me proporcionaram. A perda de meu pai e o afastamento de meu irmão de meu convívio me mostra um sentimento novo todos os dias e tento aprender com essas perdas, mas são extremamente dolorosas. O amor pelo meu marido e por meus amigos me tornam uma pessoa melhor a cada momento. A convivência com minha mãe me prepara para minha própria velhice. Quanto ao futuro, na verdade estou passando por um momento em minha vida em que o temo, afinal o desemprego é cruel, o avanço da idade também, mas a companhia do meu marido me dá alento.

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