CRÔNICA - Joel Cintra Borges

Marcílio da Mata

Por: Joel Cintra Borges | Editoria: cultura | 14/04/2018 | Visualizações: 2353

- Foto de Reprodução

Era um crioulo de olhos claros, de tom azulado. Tinha um bigodinho fino e ralo, parecido com os dos artistas românticos dos anos cinquenta. Nunca soube exatamente sua idade, mas penso que não devia ter mais que meio século.
Mas, isso tudo não importa. O que valia mesmo era sua personalidade, a pessoa que existia por trás daquela tez escura, daqueles olhos azuis. Gostava de sorrir, de fazer brincadeiras sadias, de jogar com as palavras. Nunca ouvi de sua boca um palavrão, uma palavra maldosa, ou grosseira. Era fino por natureza.
Muitas vezes saímos juntos para colher sangue de vacas ou touros, para exames de brucelose. Isso em um tempo em que o gado era azebuado e bravo, um pouco de gir, um pouco de nelore. Então, era tudo no laço, os animais peados e derrubados, porque raras eram as fazendas que tinham tronco.
Marcílio da Mata era o laçador. E como laçava bem!  Às vezes ele pegava 10, 15, até 20 animais sem errar uma! E quando, enfim, errava, lá vinha aquela risada gostosa e calma, acompanhada de alguma desculpa:
-  Foi o  vento! -  E a gente fazia coro com ele, mas, em tom de brincadeira.
Sua coragem e sua lealdade extremas certa vez foram postas à prova e ele mostrou, galhardamente, o homem que era.
Estávamos lidando com um gado bravo em um tronco e seu genro, que era o ajudante, caiu dentro do tronco, no meio daquelas vacas espantadas e de chifre afiado como espada. 
Marcílio nem pensou: pulou para o lado do moço, sem nada para se defender, além da fé e da coragem. Lembro-me bem de suas palavras ao saltar:
-  Onde morre o genro morre o sogro! - E lá estava ele defendendo o companheiro com o próprio corpo.
Os animais ficaram parados: pasmados, espantados, paralisados com aquela cena. Ou, o que é mais provável, mostraram respeito para  com aquelas duas pessoas que estavam à sua mercê mas não mostravam medo, não gritavam por socorro...
Eu ajudei como pude e eles saíram de lá sem nenhum arranhão. E continuamos nosso trabalho, nossa labuta, como se não tivesse havido nada. Mas, houve. Houve um gesto dramático de amor ao próximo, de não medir conseqüências, de expor a própria vida sem a menor sombra de temor.  

GRÁFICA E EDITORA DR LTDA

  • Av. Monsenhor Mancini, 212 - Sala 1
    Centro - São Seb. do Paraíso, MG
    CEP: 37950-000
  • E-mail: jornalsudoeste@yahoo.com.br
  • Website: www.jornaldosudoeste.com.br
  • Telefone: (35) 3531.1897