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Fernanda dos Reis Bernardes: Policial militar dedicada a servir em nome dos bons caminhos

Por: João Oliveira | Editoria: entretenimento | 02/07/2018 | Visualizações: 7183

A cabo Fernanda Bernardes é instrutora nos programas Proerd e Garotos para a Paz - Foto de Arquivo Pessoal

A policial militar, cabo Fernanda dos Reis Bernardes, é dedicada ao trabalho que vem tentando por meio da educação mudar a realidade social de inúmeras crianças em situação de vulnerabilidade social ao lado do colega de trabalho, cabo Élcio Adriano Machado. Como instrutora dos projetos Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência), há seis anos, e do “Garotos para a Paz”, há três, ela vem buscando orientar seus alunos de modo que busquem construir uma vida pautada por boas escolhas e longe de caminhos que possam levá-los para a criminalidade. Filha do senhor Otaviano Bernardes, já falecido, e da senhora Terezinha das Graças Bernardes, Fernanda tem outros três irmãos, dois mais velhos (o Newton César Bernardes e Elisângela Bernardes) e uma irmã caçula, a Flaviane. Aos 36 anos, mãe da Emelly Vitória Bernardes e Evellyn Bernardes Guimarães, de cinco e 13 anos, cabo Fernanda conta um pouco da sua trajetória e do amor que tem pelos projetos com que trabalha.


Jornal do Sudoeste: Vo-cê é natural de Itaú de Minas, como se deu essa mudança para Paraíso?
F.R.B.: Eu tinha 11 anos. Meu pai trabalhava na fábrica de Cimento Itaú, mas sofreu um acidente a acabou se aposentando. Como toda a minha família era daqui de Paraíso e só nós morávamos lá, ele construiu uma casa aqui e nos mudamos, para ficar mais perto da minha família.


Jornal do Sudoeste: E como foi sua infância?
F.R.B.: Foi muito diferente dos dias de hoje. Era uma infância de jogar bete na rua, onde podíamos brincar tranquilos, não tinham tantos perigos quanto antes; eu morava num bairro calmo e a própria cidade tinha essa tranquilidade, era pequena, todo mundo se conhecia, foi uma infância muito feliz. Tenho boas recordações de minhas amigas, com quem ainda mantenho contato. Sempre que dá, retorno a Itaú porque meu irmão ainda mora lá, ele também trabalha na indústria de Cimento Itaú e nem chegou a vir para Paraíso porque na época ele já trabalhava e tinha 19 anos. 


Jornal do Sudoeste: Você estranhou quando chegou a Paraíso?
F.R.B.: Estranhei um pouco, era uma cidade um pouco maior comparada a Itaú de Minas. Quando cheguei, fui estudar no Ana Cândida, não conhecia ninguém e tudo foi novidade, mas sou uma pessoa bem comunicativa, foi fácil fazer amizade e a adaptação. Eu também tinha minha irmã mais nova que estava junto de mim, a Flaviane, que é três anos e meio mais nova. Estudamos na mesma escola e a minha irmã mais velha foi para o ensino médio na época, ela já tinha 16 anos.


Jornal do Sudoeste: E como foram seus estudos?
F.R.B.: Aqui também fiz o Ensino Médio, no Clóvis Salgado, e cursei o Técnico em Contabilidade na época. Não cheguei a fazer faculdade, havia casado muito jovem, tinha 17 anos, hoje não estamos mais juntos, mas ainda somos muito amigos, não foi um término turbulento e também não chegamos a ter filhos. Porém, hoje sou mãe de duas meninas lindas, a Emelly Vitória Bernardes e Evellyn Bernardes Guimarães. 


Jornal do Sudoeste: Como foi seu ingresso na carreira militar?
F.R.B.: Antes de ingressar na carreira militar trabalhei durante seis anos em uma fábrica de calçados e posterior a isto prestei concurso para a Guarda Municipal. Trabalhei na Guarda por três anos, como eu trabalhava no monitoramento de câmeras, cuja central é na sede da PM, comecei a ter muito contato com os militares e foi me despertando o interesse. Foi onde eu conheci a tenente Edilaine, que trabalhava na época com o Proerd junto com o sargento Ferraresi; eu achava muito interessante aquele trabalho que era feito com as crianças. Fiquei pensando que se um dia, caso eu entrasse na PM, se também poderia trabalhar com um projeto assim. Os próprios militares me incentivaram a prestar concurso, tentei por três vezes seguidas e na última consegui. Mas mesmo depois de passar, eu não fui direto trabalhar com o Proerd, para isso é preciso passar por uma seleção interna para ver se aquele militar tem o perfil para trabalhar nesta área. Entre os militares, fui selecionada. Trabalhei quatro anos no serviço operacional e há seis estou trabalhando com o Proerd. 


Jornal do Sudoeste: Foi difícil passar pelo curso de formação de soldados?
F.R.B.: Eu fiz o curso em Bom Despacho. O mais difícil para mim foi ficar longe da minha filha, até então eu não tinha a caçula e a Evellyn tinha três anos; e ficar longe da minha mãe, que cuidou muito bem da minha filha. Lá em Bom Despacho, as pessoas foram muito acolhedoras, e eu não estava sozinha, também havia o pessoal da Guarda Municipal junto comigo, entre eles o cabo Elcio e o Rafael. Eu, por ser mãe, podia vir com mais frequência, às vezes de 15 em 15 dias, mas mesmo assim, ficar 15 dias longe de filho não é fácil, mas era por uma boa causa, era um emprego com estabilidade, algo que eu gostava de fazer.


Jornal do Sudoeste: Já passou por alguma situação de risco?
F.R.B.: Nunca passei nenhuma situação de risco, nos quatro anos em que trabalhei no operacional era um trabalho mais interno, não cheguei a ir para o ostensivo, apenas em algumas festividades, fora isto, não cheguei a ficar exposta a perigos. E no Proerd é um trabalho mais tranquilo, nós lidamos com crianças, adolescentes, famílias e graças a Deus somos muito bem quistos pela comunidade. E aqui também é uma cidade muito tranquila. 


Jornal do Sudoeste: O que é o Proerd?
F.R.B.: É um projeto que atende às crianças da rede municipal e estadual e, na medida do possível, também tentamos encaixar as escolas particulares e, quando não conseguimos, ministramos palestras que é uma forma de manter contato com criança e adolescentes daquele estabelecimento. Como tem muitas escolas, buscamos atender a todas, inclusive zona rural, além da Guardinha e São Tomás de Aquino. Devido a demanda, a prioridade é o quinto e sétimo ano, porque o Programa pode atuar desde a pré-escola até o sétimo ano. Por ano são cerca de 1000 crianças atendidas pelo programa.


Jornal do Sudoeste: O que se aprende nesse programa?
F.R.B.: As aulas são semanais, atendemos geralmente 22 turmas. São 10 lições ao todo e cada lição é um tema diferente, são quase três meses de curso e ao final há uma formatura onde ela recebe o certificado. É uma cerimônia muito bonita. Sobre as lições, trabalhamos muito sobre prevenção às drogas, discutimos muito sobre o bulling que acontece nas escolas, sobre respeito, responsabilidade, as atitudes de um bom cidadão, sobre tensão causada pela escola (mostramos alguns caminhos para que ela possa aliviar essa tensão), e a pressão dos colegas para fazer algo, até mesmo em relação ao uso de drogas e bebidas alcoólicas. Trabalhamos muito esses assuntos. Conversamos muito com esses alunos, que o que eles aprendem, eles vão poder usado para o resto da vida, o que fazemos mostra o caminho, mas o percurso, infelizmente, são eles que farão. É uma escolha deles.


Jornal do Sudoeste: Já se deparou com alunos que passaram por esse trabalho e mesmo assim fizeram más escolhas?
F.R.B.: Sim. A gente se depara com muitas situações assim. Além de trabalhar com o Proerd, eu e meu colega trabalhamos com o policiamento escolar. Então, acompanhamos o horário de saída das escolas, onde há muitos usuários de drogas esperando os alunos deixarem suas aulas para oferecer e vender a droga. É muito triste para nós, que trabalhamos nessa área, principalmente quando nos deparamos com alunos ou ex-alunos nossos indo para esse caminho errado. Nós chegamos, fazemos a abordagem seguindo o protocolo da PM, conversamos com essas crianças e adolescentes, alguns até ouvem e ficam com muita vergonha. É uma situação muito triste. Para nós, que trabalhamos nessa área, parece que o baque é muito pior. Porém, o Proed é assim: se atendemos mil crianças, e dessas mil duas conseguirmos encaminhar, já ficamos muito felizes. A gente sabe que é difícil encaminhar todos que são atendidos pelo programa, mas a maioria nos ouve.


Jornal do Sudoeste: E como funciona o “Garotos para a Paz”?
F.R.B.: É um projeto recente, já faz três anos que ele é trabalhado em Paraíso. É diferente do Proerd, pois é ministrado de quatro a seis meses e são várias disciplinas, dentre elas, além do trabalho realizado por nós militares, há outras pessoas parceiras, com alguma especialização em outra área; então, às vezes têm médicos que vão fazer palestras de acordo com o nosso público; já atendemos escolas que havia a necessidade de falar sobre gravidez na adolescência, enfermeiras para explicar para as meninas sobre a mudança do corpo porque às vezes não têm essa orientação em casa. É um projeto maravilhoso, as crianças se sentem muito incentivadas porque recebem a farda e aprendem também disciplinas militares mesmo. Elas aprendem a ser mais responsáveis, pontuais e a seguir todas as regras para não serem expulsas do curso. 


Jornal do Sudoeste: Qual é o maior desafio para você ao trabalhar com essas crianças?
F.R.B.: Hoje em dia é a família. Falta a família para a maioria delas; às vezes vemos que o mau comportamento daquelas crianças é algo que já vem de muito tempo. Quando vamos ver a situação em que vive aquela criança, são muitos irmãos convivendo, não há carinho nenhum em casa. Às vezes, é de nós mesmo que eles recebem esse carinho, elas vêm até a nós, nos abraçam, são muito carinhosas. Um brinde que a gente consegue e damos no projeto, eles ficam numa felicidade sem tamanho. Procuramos fazer festividades de aniversário e muitas dessas crianças nunca tiveram uma festinha, um bolo de aniversário. É muito bacana poder fazer isso e contar com o apoio da sociedade que nos ajudam muito e nos possibilitam proporcionar isso. 


Jornal do Sudoeste: Nesses seis anos, qual foi o momento mais marcante para você?
F.R.B.: São muitos momentos, mas um em especial envolveu uma aluna do Garotos para Paz. Essa aluna tinha muito dificuldade para ler, era um problema de visão que foi observado pela escola que chegou a chamar a mãe, mas esta mãe dizia que ia marcar consulta e ficou naquilo. Quando ela chegou a nós pelo projeto, nós notamos esse problema. Procurando parcerias, fizemos contato com o doutor Eduardo  que se prontificou em atendê-la. Ele disse que esse problema de visão da criança era de muito antes, que se houvesse feito o diagnóstico cedo, talvez ela não teria tido tanta perda da visão. Como essa criança estava vivendo, fazendo as atividades da escola? E ela já estava no quarto ano, então não conseguia desenvolver o seu aprendizado por causa disso. Conseguimos essa parceria com o doutor Eduardo Faria e a Casa do Óculos doou o óculos que ela precisava (era uma lente ultrafina para não ficar um óculos feio), ficou a coisa mais linda do mundo. Quando a levamos para experimentar, aquela alegria, aquele sorriso, foi algo muito marcante; ela ficou tão feliz que dormia com os óculos, tivemos que orientar que não podia porque estragava. Foi muito emocionante. Com isso podemos ajudar outras crianças também. 


Jornal do Sudoeste: Tem esse apoio da sociedade...
F.R.B.: Sim, em Paraíso, graças a Deus, tem muitas pessoas boas. Atualmente temos parceiros que todo o ano pedem para a gente retornar caso precise novamente. Então, sabemos a quem buscar, sem contar o restante da população que está sempre abrindo as portas para nós, não recebemos um não aonde chegamos para pedir ajuda.


Jornal do Sudoeste: E o que foi mais difícil desde que se tornou instrutora do Programa?
F.R.B.: O mais difícil para mim foi quando fiz o curso para poder assumir o Proerd, foi 15 dias que eu tive que ficar em Machado, já havia ganhado minha menina caçula, que tinha quatro meses. Então, levei ela e uma pessoa para me ajudar durante o curso, que é um curso muito puxado, são 15 dias que deveriam ser no mínimo um mês e meio. Eu não tinha hora para dormir, passava a madrugada fazendo trabalho para apresentar, mas era algo que eu queria demais e não podia medir esforços para conseguir. E acabou que deu tudo. 


Jornal do Sudoeste: Há um retorno positivo dos alunos e da escola?
F.R.B.: Muito. Somos mais conhecidos também na cidade, são cerca de mil crianças sendo formados por ano, são muitas famílias que têm contato com a gente. Às vezes, na rua, encontramos pais de alunos que não nos reconhecem por termos dado aula para os filhos deles, é um retorno muito positivo, das famílias e da escola, que sempre nos solicitam e se a gente não aparece mandam ofício, ligam e querem saber o que aconteceu. As escolas fazem questão, as famílias também perguntam. Então, nesses anos todos que estou como instrutora, todas as escolas já foram atendidas e não ficam mais sem o projeto. E tem a música que eles não esquecem (risos). Vez em quando encontramos alunos que demos aula no quinto ano e hoje já está no nono que quando nos veem começam a cantar a música. É um lembrete para vida toda. 


Jornal do Sudoeste: É difícil ser uma policial mulher?
F.R.B.: Acredito que antigamente era bem mais complicado para a mulher, em todos os sentidos. Hoje em dia, mesmo na época em que eu fiz o curso, não senti nenhum tipo de preconceito. O que existe é uma autoproteção maior por parte dos homens quando há uma policial feminina na equipe, tanto que se houver um confronto ou algo nesse sentido, eles pensam primeiramente na gente, em não nos deixar sozinhas. É um carinho, proteção e respeito muito grande com a gente.


Jornal do Sudoeste: Qual o balanço que você faz desses 36 anos?
F.R.B.: Foi muito chão, passei por muita coisa. Comecei trabalhar muito cedo, fui registrada em um curtume quando tinha apenas 14 anos. Tenho uma família muito boa, então posso dizer que nessa trajetória só tive momentos felizes, há os momentos tristes, mas esses nós procuramos esquecer. Minha maior conquista foi conseguir ingressar na carreira militar, não foi fácil e estudei bastante para conseguir isso, poderia ter chegado mais longe, mas não lamento porque acredito que a família também tem que ter prioridade na vida gente e a minhas filhas são meus pilares, tudo o que faço é por ela. Sou uma pessoa realizada. Acho que o que falta agora é viajar (risos), Dubai e Disney, são duas realizações que ainda quero ter e também deixar minhas filhas encaminhadas porque, querendo ou não, nós vivemos pelos filhos.

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