ENTRETANTO

Espiões digitais?

Por: Renato Zupo | Categoria: Justiça | 12-10-2021 20:59 | 4200
Renato Zupo
Renato Zupo Foto: Reprodução

Sou o único empreendedor digital que conheço que entende muito pouco de tecnologia da informação. Produzo, na verdade, a informação que vai ser veiculada – como, quando e através do que irá ser, isso é com meu grupo brilhante de jovens colaboradores nerds ou geeks (como queiram) que administram o modus operandi de tudo isso e que não deixam a peteca cair. Talvez meu defeito seja esse: estacionei na zona de conforto de ser sempre assessorado e nunca me enfronhei no conhecimento cibernético  cada dia mais vital para os mais diversos labores cotidianos.

Portanto, vivo estranhando tudo. É tão comum que não me embasbaco mais, muito embora recentemente tenha de fato me assustado e hoje esteja começando a me preocupar bastante com minha segurança eletrônica e, principalmente, com minha vida privada.

Foi assim. Anos atrás tive que começar pra valer a investir pesado em redes sociais e aplicativos de mensagens – primeiro como  escritor e criador de conteúdo  e em seguida como juiz, quando a pandemia “pegou” e passamos a realizar inúmeras tarefas processuais diárias a distancia e por meio eletrônico. Então, pus mãos à obra e passei a viver metade do dia on line. Como a clausura no comércio e o fato de ter passado a morar na roça me forçaram a comprar muito pela internet, que tem de fato melhores preços, eis que minha vida eletrônica se tornou minha principal vida!

Aí os mistérios começaram...  Sou antiquado até para internet e ainda tenho, passados vinte anos, um portal de acesso à internet e me comunico bastante por email. Quando fiz cinquenta anos começaram a surgir cookies, não os biscoitos, mas aqueles anúncios fantasma indesejáveis, e neles propaganda de ... viagra. Teria isso a ver com minha idade recém completada? E como “o computador” sabia da minha idade? Não compro remédios pela internet, das poucas coisas que de fato por lá não compro, ainda mais os que precisam de receita, e portanto não se explicava como meu portal e meu email “sabiam” da minha idade. Aí conversei aqui e acolá. Tem um negócio de “IP”, e mesmo a inscrição no portal, e nestes dois casos o provedor e o “hospedeiro” – sei lá se o  nome é esse  - sabem da minha data de nascimento. Saber que aos cinquenta se precisa de Viagra é puro conceito ou pré-conceito, mas, tá bom, vá lá... até aqui  estava tudo explicado.

Depois comprei tênis por um grande portal de vendas, especializado só nisso. Tive que criar um novo perfil e ainda uso muito o computador, não gosto de comprar pela tela pequena do celular e tablete pra mim é brinquedo de menino. Pelo computador, acessei o site de compras e criei um perfil independente, comprei pelo perfil e paguei pelo cartão e recebi a mercadoria em dois dias. Perfeito! E depois e novamente começaram a chover cookies (de novo os falsos biscoitos) com anúncios de novos pares de tênis. Acautelei-me, não entendi nada. Os anúncios chegavam nas páginas do portal, não no email do cadastro do perfil. E apareciam na página de entrada do Google Chrome do celular, e eu havia comprado (lembre-se) com perfil autônomo pelo computador. “Ah! – disseram meus nerds amigos – é porque pelo seu cartão e email de cadastro na conta do site eles sabem te achar pelo IP”. Tá bom, fui vencido, não convencido, mas bola pra frente, que tenho dois filhos, duas cachorras, centenas de alunos e 120 mil habitantes pra tomar conta.

Assim continuou o estranho escrutínio à distância de minha vida privada. Comprava vinhos e vinhos eram oferecidos no whatsapp, que chamo de Zap e nem sei direito como se escreve no original. Eu comprava pelo portal de vendas e aparecia no zap do celular, mas tudo bem, tinha aquela história de perfil, cartão, telefone cadastrado, etc... Fui engolindo essas respostas, mesmo quando assisti a um filme de guerra em uma plataforma de filmes, ou streaming (outro nome novo pra mim) e a plataforma começou a me mandar mensagens com “outros filmes que você talvez poderá gostar”, pelo próprio canal ou por email e com o perdão da redundância entre os termos “talvez” e “poderá”. Mas bits e bytes não tem obrigação gramatical rigorosa, não é?

Até que aconteceu o mais inusitado. Pensei em comprar um imóvel. Visitei sites de imobiliárias e passeei sem deixar rastro, ou ao menos pensei tê-lo feito. Não forneci dados de espécie alguma, não comprei, vi fotos e é só. E ainda assim passaram a chover cookies (agora biscoitos amargos) e mensagens de zap e email anunciando casas. Até um gerente de banco me ligou! E o pior: quando comprei casa, comprei por fora, de gente humana – aqui, depois dessa história toda, o pleonasmo se justifica. E os anúncios pararam! Agora, me expliquem, como Google, Facebook, Zap, email do portal, essa “gente” não humana toda, soube que comprei e, portanto, não  estava mais comprando imóvel? Como dizem na roça: chupa essa manga!

Estou muito preocupado, me sinto em um romance de Orwell, em que o grande irmão tudo vê e que não se tem privacidade para nada. A vida privada acabou e todos estamos acessíveis o tempo todo, à distância, on e off line, perseguidos pela tecnologia que surgiu para nos dar conforto e hoje criou um mundo inexplicável e paradoxal. Ainda bem que, de todos estes programas, aplicativos e sites devassados e que devassam, nos sobra a nossa boa e velha urna eletrônica, não é? Tecnologia antiga, mas à prova de hackers... não é?
RENATO ZUPO – Magistrado, Escritor