Café, trabalho e afeto: O tripé que sustenta a Fazenda Nova Aliança
Com 150 hectares cultivados e salários acima da média, fazenda familiar em Monte Santo de Minas transforma grãos em legado — e trabalhadores em família

No
alto da zona rural de Monte Santo de Minas, em uma estrada de terra tranquila,
quase poética, vive um casal que há 24 anos transformou a própria rotina em
projeto de vida: cultivar café com responsabilidade, consistência e afeto. A
Fazenda Nova Aliança — lema gravado em parede e prática diária, “História
contada através de sabores” — é o ponto onde tradição se encontra com
futuro: qualidade de xícara, manejo de solo, respeito à água e gente no centro
das decisões.
Tradição que atravessa gerações
Antes
de se chamar Nova Aliança, a propriedade era conhecida como Fazenda Onça. Há
registros de 1880 que comprovam a vocação cafeeira e a ligação com a família
Paulino da Costa. Um nome atravessa essa história: Olyntho Paulino da Costa.
Foi ele quem ergueu a casa sede e, ao lado de Dulce, formou família com três
filhos: Luiz Alberto, Antenor César e Maria Henriqueta. Com a morte de Olyntho,
coube ao primogênito Luiz Alberto assumir a lida. Anos depois veio a divisão
das terras entre os irmãos.
Luiz
Paulino tocou a sua parte com Martha, com quem teve três filhos: Juliana, Olyntho
e Renata. Mais tarde, também dividiu sua área. Hoje, a Fazenda Nova Aliança
está no nome de Juliana Paulino da Costa Mello, casada com Flávio Pereira de
Mello, agrônomo que assina o manejo da lavoura. As filhas, Marina e Vitória,
fecharam o ciclo: cuidam da exportação, do marketing e das vendas internas. “É
a família que cuida da fazenda e do legado”, resume Juliana.
Um começo de vida — e de escolha —
Sustentabilidade
prática: solo vivo, menos insumo e zero irrigação
A
relação de Juliana com a roça vem da infância: férias de colheita, cheiro de
terreiro, amizade com trabalhadores que hoje, como ela diz, “já têm mais de 50
anos”. A vida, porém, levou o casal a outras cidades até que, na pandemia, tudo
mudou. “O Estado de Minas fechou as portas. Decidimos voltar de vez. Sem
glamour, com trabalho”, conta a administradora. A partir dali, a gestão deixou
de ser pendular e virou presença: casa na cidade por causa da sogra com
deficiência visual, e o dia a dia da fazenda — decisão de ficar, de construir e
de não voltar mais para Campinas.
O
manejo ambiental nasce de uma observação crua e útil: solo estressado não
entrega potencial. “Eu via áreas judiadas em que, quanto mais químico entrava,
menos a planta respondia. Bati no teto de produtividade”, lembra Flávio. Foi
quando a chave virou: a terra precisou voltar a ser organismo — com matéria
orgânica, cobertura vegetal, vida microbiana e redução de defensivos. “Se a
planta vive menos estresse, ela produz mais e melhor.”
Há
outra decisão emblemática: mesmo com nove nascentes dentro da propriedade — que
ajudam a abastecer Monte Santo de Minas e Guaranésia — a fazenda optou por não
irrigar a lavoura. “Água é para o essencial. Nosso papel é armazenar a chuva no
solo”, explica Flávio. Para isso, ele desenha as linhas de plantio em curvas de
nível, abre terraços e bacias de infiltração ao longo das ruas de café e mantém
palhada e cobertura para proteger o solo e aumentar a infiltração. Resultado:
resiliência hídrica sem abrir torneira.
No
pós-colheita, outra escolha de filosofia: o processamento é natural (via seca).
“Não temos nada contra fermentações controladas, mas nossa proposta é
consistência do terroir, colheita madura e cuidado de terreiro. ‘A natureza te
dá o café daquela região’, e é isso que queremos na xícara”, diz Flávio.
Três pilares:
econômico, ambiental e — sobretudo — social
A
fazenda não romantiza os números: produtividade sustenta qualquer plano. O
manejo busca estabilidade diante de clima imprevisível — colheita mais rápida
quando o tempo aperta, atenção redobrada aos terreiros em frente fria,
processos definidos que se aperfeiçoam safra a safra. Mas é no pilar social que
Nova Aliança diferencia o discurso da prática.
“Nosso
objetivo é bem-estar real dos nossos colaboradores — não slogan”, afirma
Juliana. Isso começa no básico e vai além: todos têm registro, todos recebem
salário acima do mínimo e acima da média regional, há cesta básica mensal e
complementos de alimentos produzidos ali (milho, feijão, horta). Aniversário
não é dia de serviço: é folga, por princípio. Hoje, a fazenda mantém 10 casas e
um quadro fixo entre 22 e 25 trabalhadores, ampliado na colheita. “Ao contrário
do que se ouve por aí, aqui tem fila para morar na roça”, sorri Flávio.
O
cuidado também é escuta. O casal sentou com cada um, um a um, para perguntar:
“Como podemos ajudar?”. Flávio se surpreendeu: “Eu esperava ‘salário’, ‘hora
extra’. E vieram pedidos assim: ‘Quero aprender a ler’, ‘quero ver meus filhos
crescerem’. É outra camada de necessidade.” A resposta virou projeto: um espaço
para as crianças — parquinho, jogos como queimada, sala de desenho e
convivência — “uma espécie de creche no contraturno”, diz Juliana. E uma
mensagem que vale tanto para quem fica quanto para quem vai: estudar é não
negociável. “A agricultura saiu do ‘quem não estuda vai pra roça’. Hoje, quem
não estuda também não para na roça. A lavoura precisa de GPS, drone, cálculo,
tecnologia”, completa Flávio.
“Vício positivo”:
confiança puxa confiança
O
tom vira conceito na fala de Flávio: “A gente precisa sair do ‘oficiante negativo’
e entrar num ‘vicioso positivo’. Se a gente melhora a casa, o entorno, os
processos, eles ficam e retribuem; quanto mais entregamos, mais eles entregam”.
Juliana traduz em cotidiano: “Quando um morador entra em casa, ele sabe que a
casa é dele. Respeito, vizinhança, dignidade. É assim que se constrói um lugar
onde as pessoas querem estar.”
O peso da gestão: a
história do Vitinho
Nenhuma
teoria para em pé sem execução. Na Nova Aliança, a execução tem nome e
história: Victor Olímpio, o Vitinho. Filho de um administrador que tocou a
fazenda por 60 anos, ele nasceu ali, cresceu ali e hoje administra a operação
diária. Seu filho já opera as máquinas. “Sem o Vitinho, não estaríamos aqui”,
admite Juliana.
Flávio
coloca em números o que aprendeu em décadas de chão: “Em uma fazenda, 60% do
sucesso é administração; 30% é agronomia; e 10% são os donos. O produtor
precisa saber escolher, delegar, comprar na hora certa e deixar tudo pronto
para que a administração funcione. A presença do dono é importante, mas não
substitui processo e gente boa.” É um jeito direto de reconhecer o que, na
prática, explica a constância da fazenda.
Qualidade com lastro e
a origem como caminho
As
escolhas de manejo e gente reverberam na xícara. Hoje, entre 30% e 40% da
produção da Nova Aliança vai para o exterior em cafés de origem: Reino Unido,
Nova Zelândia e Irlanda são os principais destinos; Espanha e Japão surgem no
horizonte. No Brasil, o café também chega a cafeterias que valorizam história,
consistência e relacionamento direto. “O que nos orgulha não é só exportar, é
entregar a amostra que prometemos. O comprador prova aqui, recebe o mesmo lá.
Isso gera confiança”, diz Flávio.
Essa
confiança também se constrói no coletivo. O casal defende a formação de grupos
do Sudoeste de Minas com padrão de certificação (Certifica Minas Café) e
história clara, para compor contêine-res em conjunto quando faltar volume
individual. “Lá fora, quem compra quer contar a história. Se eu não tenho dez
sacas, o vizinho tem; todo mundo ganha. Não é derrubar cooperativa nem
exportador. É somar com cafés de origem, com limite natural de volume”, explica
Flávio. A visão é simples e estratégica: estabilidade de oferta e visibilidade
para a região.
Portas abertas: escola,
faculdade e mesa mineira
Outro
vetor de impacto da Nova Aliança é abrir a porteira. Escolas estaduais,
colégios técnicos e faculdades já levaram cerca de 700 alunos para visitas
guiadas, com direito a mãozinha carimbada na parede — uma galeria de mãos que
vira mural de memória. “A gente percebeu que muita gente acha que leite vem da
geladeira e verdura do refrigerador. Precisamos plantar uma semente, mostrar
que dá para produzir sustentável e que agricultor não é vilão”, diz Juliana. O
passeio é aula de ecologia do solo, água, trabalho e cidadania.
Quando o visitante é comprador, a pedagogia muda de tom, mas a hospitalidade é a mesma. Juliana gosta de contar uma anedota: certa vez, ao organizar uma visita, ouviu do interlocutor que “não precisava se preocupar com almoço, eles comiam em qualquer lugar”. Resposta mineira: “Aqui é casa. Vai comer com a gente.” E Flávio emenda: “Isso não compra café. Se o café estiver ruim, não vai. Mas mostra quem somos e cria relacionamento baseado em verdade.”
Processos que evoluem,
sem perder o norte
Clima
virou palavra-chave na agricultura, e a Nova Aliança opera com metodologia
flexível. Choveu fora de época? Acelera colheita. Vento frio chegando?
Replaneja terreiro. A ideia é melhorar continuamente, proteger o que já deu
certo e evitar atalhos. “Não queremos ser orgânicos; queremos ser sustentáveis.
Menos tóxico quando dá, mais extratos de plantas, mais matéria orgânica. E
sempre respeito à água. A nascente é vida”, diz Flávio.
A escolha por não irrigar aparece de novo, como norte ético e técnico. “Mesmo podendo, não irrigamos. Preferimos investir em curvas de nível, bacias de captação, som-brite nos terreiros quando necessário e cobertura que guarda a umidade do solo. Assim a chuva vira estoque. E a água da nascente, que é bem comum, segue cumprindo seu papel”, completa.
Trabalho, propósito — e
xícara
Se
o leitor quer número, o número existe: produtividade que sustenta a folha de
pagamento e as melhorias ano a ano. Se quer história, tem de sobra: cinco
gerações na mesma terra, com mudanças e divisões familiares, perdas e voltas.
Se quer propósito, ele aparece claro, na forma como o casal prioriza gente e
água. E, se quer xícara, a xícara chega com assinatura: café natural do
Sudoeste de Minas, limpo, doce, de terroir reconhecível “hoje e amanhã”.
Juliana
resume o que, no fim, amarra os capítulos: “Tudo o que a gente coloca amor, sai
amor. Se colocar ódio, sai ódio. A fazenda é nossa casa, mas também é casa de
quem mora e trabalha aqui. É por isso que a gente investe nas pessoas.” Flávio,
por sua vez, traduz o legado do café em linguagem de comunidade: “A melhor
recompensa é um cliente dizer ‘essa é a minha casa’ quando chega. E ouvir lá
fora, numa cafeteria, contarem a nossa história enquanto alguém toma a xícara.”
Um último gole
A Fazenda Nova Aliança não é estufa de ideias perfeitas; é laboratório de decisões repetidas com cuidado: solo vivo, água guardada, gente valorizada e porta aberta para aprender e ensinar. É assim que o lema deixa de ser frase bonita e vira rotina: “História contada através de sabores desde 1880.” Hoje, essa história tem protagonistas com nome e sobrenome — Flávio, Juliana, Marina, Vitória, Vitinho e um time inteiro que prefere ficar a ir embora. Amanhã, se tudo seguir como planejam, terá mais mãos carimbadas no muro, mais crianças brincando no parquinho e mais xícaras contando, de forma simples, que a qualidade é a síntese de ambiente, gente e trabalho.