Mercado do café arábica vive momento de atenção entre oferta, demanda e preços
O
comportamento do mercado do café arábica, as projeções para oferta e consumo
global e as perspectivas da safra brasileira estiveram entre os principais
temas abordados pelo gerente da MGCOM Unidade São Sebastião do Paraíso,
Sebastião Borges Júnior, em entrevista ao CADERNO AGRO Jornal do Sudoeste.
Na análise, ele destacou fatores que vêm influenciando o mercado internacional
da commodity, bem como o reflexo dessas movimentações no mercado físico do
arábica no Brasil, especialmente em regiões produtoras do Sul de Minas.
COMO ESTÁ SENDO O
COMPORTAMENTO RECENTE DO MERCADO DE CAFÉ ARÁBICA?
O
mercado de café foi impactado pela produção da safra passada que sofreu uma
quebra estimada entre 20% e 25% para o café arábica devido a geadas e secas
severas no Cerrado e em outras regiões produtoras nas safras anteriores, somado
a registros de estoques baixos.
Neste
cenário, o ano de 2025 foi marcado pela superação de recordes nos preços,
consolidando como a maior valorização na história recente da cafeicultura.
O
mercado também foi marcado por incertezas globais, incluindo o impacto de
tarifas de importação nos EUA (“tarifaço”) que, embora suspensas
temporariamente entre setembro e outubro, geraram volatili-dade e
redirecionamento de fluxos para outros destinos.
No
Brasil, o café foi o item com a maior alta na cesta básica em 2025, acumulando
uma valorização de 116% em cinco anos.
A
volatilidade durante todo ano foi grande, enquanto os estoques certificados de
arábica nos EUA caíram cerca de 24,2% de setembro para outubro de 2025,
provocando preços jamais vistos.
Neste
período, o preço do arábica chegou a registrar a máxima histórica na bolsa de
Nova York (ICE Futures) quando atingiu @ 414,80 centavos de dólar por
libra-peso em 25 de outubro de 25, (mais de US$ 4,20 por libra peso).
O
produtor brasileiro entrou no ano 2.026 aguardando por preços mais elevados
durante a entressafra brasileira, apostando que o estoque disponível atual é
muito pequeno e está concentrado nas mãos de produtores capitalizados.
No
entanto, o “mercado” começou a cor-rigir parte da alta apesar dos estoques
ainda justos e concentrado em poucas origens e com a entrada do café do
Vietnam, começou-se a perceber que o mundo não terá problemas com abastecimento
no curto prazo, até a entrada da próxima safra brasileira 26/27 já a partir do
final do próximo abril-26.
Junto
com essa percepção o clima de outubro-25 para cá tem sido “muito bom” para as
lavouras. Chuvas abundantes em praticamente todas as principais regiões
produtoras!
Outro
fator importante na manutenção dos preços do café neste período analisado foi o
dólar que em 2025 saiu de níveis de R$ 6,00 para perto de R$ 5,50 no final do
ano, e já no início de 2026 a moeda começou a trabalhar mais estável, na faixa
entre R$ 5,10 e R$ 5,30, influenciado principalmente pelos juros elevados no
Brasil e pelo fluxo de commodities.
QUAIS AS PROJEÇÕES PARA
OFERTA E CONSUMO GLOBAL?
As
estimativas indicam uma produção mundial entre 180 e 190 milhões de sacas,
enquanto o consumo deve ficar entre 176 e 185 milhões de sacas, ou seja, o
equilíbrio do mercado dependerá muito da confirmação destas estimativas ao
longo do ano.
Dependendo
do consumo mundial, a partir de agora o mundo começará a ter produção
suficiente para iniciar a reposição dos estoques ao redor do mundo.
Notícias
vindas ultimamente da Colômbia, que é o 3º maior produtor de café do mundo,
atrás apenas do Brasil (1º) e do Vietnã (2º), ajudaram a sustentar o mercado
com a confirmação da safra 25/26 em apenas 12.50 milhões de sacas. Mesmo com
essa quebra na Colômbia o mercado continua apostando num superavit mundial ao
redor dos 8-10 milhões de sacas para os próximos 12 meses.
E A SAFRA BRASILEIRA,
QUAL A EXPECTATIVA?
As
estimativas variam bastante, são diversas estimativas, indo de 66 milhões até
77 milhões de sacas. O mercado está muito atento ao Brasil, pois qualquer número
abaixo de 70 milhões de sacas pode voltar a pressionar os preços para cima no
médio prazo.
A
Conab divulgou a previsão para a safra brasileira de 66,20 milhões de sacas
(44,20 milhões de sacas café arábica e 22,10 milhões de sacas para café
conilon) um aumento de 17,1% em relação ao ciclo anterior.
COMO ESTÁ O
COMPORTAMENTO DO MERCADO FÍSICO DE ARÁBICA?
O
mercado físico de café no ano de 2025, pelos motivos expostos, foi marcado por
alta volatilidade e preços em patamares históricos.
Após
um pico no início de 2025, os preços tenderam a uma leve acomodação após o
início da colheita, mas mantiveram-se altos em comparação aos anos anteriores.
Nos melhores momentos, a saca de arábica no mercado físico chegou a superar R$
2.600,00/saca.
Embora
a safra 2025/26 tenha mostrado problemas, o mercado começou a olhar para 2026
com expectativas de maior produção, exercendo pressão de baixa para o início
deste ano, provocando uma queda de cerca de 14% nos preços, com a cotação dos
contratos em NY chegando perto dos US$ 2,80 por libra peso.
Nesta
primeira semana de março de 2026, mercado chegou a trabalhar entre R$ 1.900 a
R$ 2.000 a saca.
Resumindo,
o período foi marcado por um dos ciclos mais fortes de valorização do café nos
últimos anos, seguido de uma correção no início de 2026, com o mercado tentando
equilibrar oferta e demanda mundial.
O QUE ESTÁ ACONTECENDO
COM O MERCADO DE CONILON?
O
cenário atual do mercado de café conilon (robusta) no Brasil é de oferta
elevada, preços ainda firmes historicamente, mas com tendência de maior
equilíbrio e volatilidade.
O
conilon, também registrou importante valorização, chegando perto de R$ 1.900 no
início de 2025.
Em
2026, os preços estão próximos de R$ 1.000/saca, como registrado neste início
de março, mas ainda enfrenta pressão devido a entrada da nova safra e ao fato
de produtores ainda possuírem produto estocado.
Por
outro lado, problemas logísticos internacionais podem favorecer o conilon
brasileiro.
Também,
outro fator importante, é que o conilon tem sido cada vez mais utilizado pela
indústria global, principalmente para cafés solúveis, blends com arábica com
percentual de robusta cada vez maior e cápsulas e cafés industriais. Com isso,
o Brasil vem ganhando espaço no mercado mundial de robusta, aproximando-se da
liderança do Vietnã.
E COM RELAÇÃO AOS
PREÇOS PARA VENDAS FUTURAS?
O
mercado de Venda Futura de Café entre 2025 e o início de 2026 teve um
comportamento bem particular: preços atrativos em alguns momentos, mais com
comercialização mais lenta que o normal.
Durante
boa parte de 2025, muitos produtores aproveitaram picos de preço para travar
vendas futuras entre R$ 2.200 a 2.300 por saca para entrega em ago/set de 2026.
No
final do ano de 2025, o mercado começou a mostrar maior volatilidade e
correções e muitos produtores passaram a vender com mais cautela.
Neste
início de março os preços de travas futuras ficaram entre R$ 1.650 e R$ 1.700
por saca. Já para 2027 os negócios foram
reportados abaixo de R$ 1.600/saca nos últimos dias.
COMO A GEOPOLÍTICA ESTÁ
AFETANDO O MERCADO DE CAFÉ?
A
combinação de problemas climáticos e sobretudo com as tensões geopolíticas com
os conflitos no Oriente Médio, provocam reflexos diretamente nas commodities, e
aumenta as incertezas econômicas pressionando a logística, impactando fortemente
no preço do café.
Os
principais riscos são:
Riscos
no Oriente Médio (EUA-Israel x Irã): Tensões nessa área pressionam os custos de
energia e logística para o agronegócio, gerando novas sobretaxas no frete e
receio de desabastecimento em rotas internacionais.
Tarifas
e Tensões com os EUA: Tarifas de importação impostas pelos EUA sobre o café,
incluindo as de 40% a 50% sobre o café solúvel, impactaram a competitividade do
produto brasileiro, reduzindo os embarques para o país em 2025, embora a
suspensão de algumas taxas tenha ocorrido no final daquele ano.
Mudança
no Mapa de Exportação: Devido às tensões, o Brasil teve que buscar novos
mercados ou alterar contratos. Enquanto as exportações para os EUA caíram em
2025, países como Japão, Turquia e China aumentaram suas compras, buscando
alternativas.
Impacto
nos Insumos (Guerra Ucrânia-Rússia): O conflito impactou o custo de
fertilizantes e combustíveis, influenciando os custos de produção no Brasil.
O QUE ESPERAR DE PREÇOS
DE CAFÉ NO CURTO PRAZO?
Apesar
da previsão de safra recorde em 2026 pressionar os preços para baixo no início
do ano, o mercado continua volátil. O aumento de custos, condições climáticas
desfavoráveis no passado e a demanda constante mantêm o preço do café com
tendência de acomodação.
Em
ciclos de alta produção, o mercado tende a pressionar os preços para baixo,
porém o maior risco está no clima do Brasil, especialmente no período de
inverno entre maio e agosto. Qualquer problema climático pode impactar a safra
2027/2028 e provocar forte reação nos preços. Mesmo com a pressão da safra, os
fatores que devem sustentar o mercado são:
•
Estoques globais ainda relativamente baixos
•
Demanda mundial forte
•
Riscos climáticos no Brasil
•
Custos logísticos
•
Geopolítica
Alguns
analistas veem o mercado trabalhando em faixas de consolidação (próximos de
290-300), com suporte perto de 277 e resistência perto de 325 cents/lb.
Nossa
orientação sempre ao produtor é acompanhar os momentos de alta no mercado e
aproveitar as oportunidades ainda bem acima do custo de produção da grande
maioria dos produtores!
MGCOM Unidade Paraíso- Avenida Alferes Manoel Caetano, 68, na Vila Helena




