Quem produz não trabalha contra o relógio: Trabalha contra o tempo
Manifestação do Sindicato Rural de São Sebastião do Paraíso sobre a jornada 6x1, a safra e as variações climáticas no campo
O
Brasil se sustenta sobre o trabalho de muitos, mas sobre a coragem de poucos -
e entre esses poucos estão os homens e mulheres que produzem no campo.
O
produtor rural não lida apenas com custos, tributos e mercado. Ele lida com
algo ainda mais implacável: o tempo da natureza. E a natureza não trabalha por
decreto, não respeita discurso e não espera conveniência política.
No
campo, a realidade não é teórica. Há tempo de plantar, tempo de colher, tempo
de apartar, tempo de vacinar, tempo de tratar, tempo de transportar e tempo de
salvar uma produção inteira antes que a chuva destrua, que a seca comprometa,
que a umidade derrube a qualidade ou que a janela da colheita se feche. Quem
não compreende isso não compreende o campo.
É
justamente por isso que o debate sobre a jornada 6x1 precisa ser tratado com
extrema responsabilidade. O que para alguns setores pode parecer apenas uma
fórmula de organização do trabalho, para a atividade rural pode representar
rigidez incompatível com a realidade produtiva. No campo, há períodos em que a
demanda se intensifica de forma inevitável, especialmente na safra, na
colheita, no manejo animal e nas variações climáticas que exigem resposta
imediata.
A
lavoura não espera. O gado não espera. A chuva não espera. A janela de colheita
não espera.
E
quando o tempo não espera, o produtor também não pode ficar impedido de
organizar sua atividade com racionalidade, dentro da lei, de forma responsável
e compatível com a realidade que enfrenta.
Isso
não significa desconsiderar o trabalhador. Ao contrário. O trabalhador rural
merece respeito, remuneração justa, proteção contra abusos e dignidade em sua
jornada. Mas respeitar o trabalhador não pode significar ignorar a lógica
concreta da produção rural. Não haverá trabalho digno se não houver produção
viável. Não haverá emprego sustentável se a atividade for amarrada por regras
incapazes de dialogar com a vida real do campo.
Produtor
e trabalhador não marcham em lados opostos. Marcham na mesma direção. Um
depende do outro. Ambos dependem da continuidade da produção. E a continuidade
da produção, no campo, depende de flexibilidade responsável, previsibilidade
jurídica e compreensão daquilo que faz a atividade rural ser diferente de
qualquer outra.
Uma
nação séria não impõe ao campo soluções pensadas longe da terra, longe da safra
e longe da urgência da realidade. Ela reconhece que a atividade rural exige
equilíbrio: proteger quem trabalha, sim, mas também permitir que quem produz
tenha liberdade para enfrentar o clima, responder à safra, cumprir o tempo da
colheita e preservar a própria existência da produção.
A
verdadeira justiça está exatamente nesse ponto de equilíbrio. Justiça não é
sufocar quem produz. Justiça é garantir que o trabalhador tenha dignidade sem
destruir as condições que tornam o emprego possível. Onde há produção
responsável, há trabalho. Onde há trabalho digno, há renda. Onde há renda no
campo, há estabilidade nas cidades e alimento na mesa das famílias.
Toda
vez que se enfraquece o produtor rural, enfraquece-se também o trabalhador, a
economia local, o abastecimento e a segurança alimentar do país. Porque o campo
não é um setor qualquer. O campo é uma atividade submetida ao risco, ao tempo e
à urgência.
O
campo brasileiro não pede privilégios. Pede apenas que sua realidade seja
respeitada. Pede segurança jurídica para organizar o trabalho de forma séria.
Pede equilíbrio para continuar produzindo mesmo diante da safra, das oscilações
climáticas e das exigências que a natureza impõe.
Porque
quem produz no campo não trabalha contra o relógio. Trabalha contra o tempo. E
uma nação que não entende isso corre o risco de enfraquecer justamente aqueles
que a sustentam.
Denise Cerize Kolling - Presidente do Sindicato Rural de São Sebastião do Paraíso.




