Madrugada. Uma pessoa de sessenta anos volta para casa a pé.
As ruas estão desertas, alguns trechos pouco iluminados, outros com terrenos
baldios. Um cenário que inspira tensão em muita gente, mas essa pessoa aqui tem
sessenta anos. Já não se preocupa tanto como antes. A idade vai borrando o
alvo, não? Errado. O alvo continua ali porque essa pessoa é uma mulher. Aos 15,
30, 60, 80 habitar esse corpo significa carregar o alvo. Uma mulher nunca está
segura.
Aconteceu aqui, em nossa pacata cidade. Uma senhora de 60 anos arrastada para
um terreno baldio e violentada por um homem de 28 anos. Entre as reações da sociedade, um vídeo publicado no instagram por um vereador faz um alerta sobre
como mulheres podem se antecipar ao perigo. A intenção é boa, mas algo me
incomoda ali.
Boa parte de nós já vive com medo todos os dias. Estamos em
alerta quando sozinhas ou em locais ermos, mal iluminados. Temos nossos olhos e
ouvidos programados para identificar o perigo em cada esquina. E, como se não
bastasse, ele não está apenas nas ruas. A maioria dos casos de estupro no
Brasil ocorre dentro de casa — e a violência é cometida por pessoas conhecidas
da vítima: parentes, parceiros, amigos.
Na postagem do vereador, o foco é o comportamento da vítima,
ignorando o abandono do espaço público. Poucos foram os comentários sobre a
escuridão que engole as calçadas. A Rua Deputado Delson Scarano, por exemplo, é
um retrato desse descaso: ali, bem perto do centro, a iluminação morre no meio
do caminho, entregando o trajeto a terrenos baldios que servem de esconderijo
para o medo. É mais fácil ensinar uma mulher a vigiar a própria sombra do que
garantir iluminação pública adequada.
Não demora muito para surgirem os comentários defendendo o
armamento das mulheres. Faço um esforço de empatia, mas alguns casos ainda
estão muito recentes na memória. Lembro do tenente que matou a esposa policial e
tentou forjar suicídio. Lembro do policial rodoviário que assassinou a
ex-namorada Comandante da Guarda Municipal. O acesso a armas não salvou essas mulheres.
Em nenhum comentário a indagação de quem esse homem, hoje um
criminoso, já foi — em que momento ele aprendeu a não ver uma mulher como
gente. Aqui está a origem mais profunda de todo esse problema e do meu desconforto
com o discurso de que mulheres precisam estar mais atentas. Querem ensinar as
mulheres a se defender, mas quem ensina os homens a não atacar?
A educação de homens e meninos é um caminho longo, talvez o
único real, mas ele exige o que a pressa das redes sociais não tem:
profundidade. Enquanto isso, o discurso público se contenta em nos oferecer o
paliativo do medo ou a ilusão das armas. Mas não nos enganemos: nenhuma
lanterna ou gatilho apaga a marca nas nossas costas. Enquanto o corpo de uma
mulher for visto como território de conquista e não como gente, seguiremos
caminhando no escuro, carregando esse alvo bem aceso.
Marília Nogueira



