2.º Seminário Maio Laranja debate abuso sexual infantil e perigo das redes sociais
A Câmara
Municipal de São Sebastião do Paraíso realizou o 2º Seminário Maio
Laranja, iniciativa promovida pela Procuradoria Especial de Proteção da Criança
e do Adolescente com foco na conscientização, prevenção e enfrentamento à
violência sexual contra crianças e adolescentes. O encontro reuniu autoridades,
profissionais da rede de proteção, educadores, conselheiros tutelares,
representantes das forças de segurança e membros da comunidade em um amplo
debate sobre acolhimento, prevenção e fortalecimento das ações de defesa da
infância.
A vereadora
Cidinha Cerize, vice-presidente da Câmara, representou o presidente Lisandro
Monteiro e fez a abertura do evento. Em sua fala, Cerize destacou a relevância
do tema e a necessidade de fortalecimento da rede de proteção às crianças e
adolescentes.
Idealizador
do seminário e procurador especial da Criança e do Adolescente do Legislativo
Municipal, o vereador Roney Vilaça ressaltou a importância da
mobilização conjunta entre poder público e sociedade civil.
“Quero
agradecer especialmente você que está presente aqui hoje, porque a segurança
das nossas crianças só se constrói se estivermos unidos. Sociedade civil, nós
precisamos também estar mobilizados enquanto poder público. Esse aqui é só um
pequeno passo.
Entre os
palestrantes estiveram a deputada federal Ione Barbosa, a vereadora de
Contagem Keyla Cristina Parreiras Pinto Aredes, conhecida como Tia Keyla, especialista
em educação protetiva, e o juiz de direito, Jefferson
Torres Freitas, diretor do Foro de São Sebastião do Paraíso e titular da Vara
da Infância e Juventude da comarca.
A deputada
Ione Barbosa destacou sua atuação no enfrentamento à violência sexual infantil
e chamou atenção para o crescimento dos crimes praticados no ambiente digital. “Sou
presidente da Frente Parlamentar de Combate à Pedofilia na Câmara Federal,
deputada federal e delegada de Polícia. Estive à frente da Delegacia da Mulher
por muitos anos e acompanhamos inúmeros casos de pedofilia e estupro. Hoje
precisamos entender que não falamos apenas do estupro de vulnerável, mas também
dos crimes praticados pelas redes sociais”, afirmou.
A
parlamentar apresentou dados preocupantes sobre a realidade brasileira. Segundo
ela, o país registra cerca de 200 mil casos de violência sexual por ano, sendo
que 76% das vítimas têm menos de 14 anos. Também ressaltou que a maior parte
dos abusos ocorre dentro do ambiente familiar ou por pessoas próximas às
vítimas.
“A violência
começa no silêncio. Primeiro vem a conquista, depois o isolamento e,
posteriormente, a coação. O agressor quase sempre é alguém conhecido,
respeitado e próximo da família”, alertou. Também enfatizou os perigos do
ambiente virtual e o avanço dos crimes digitais envolvendo crianças e
adolescentes. Ela abordou práticas como o “grooming”, caracterizado pela
aproximação afetiva de predadores com menores pela internet, e a “sextorsão”,
modalidade de chantagem feita a partir de imagens íntimas obtidas por manipulação.
“O celular
sem supervisão é uma das principais portas de acesso aos abusadores. As redes
sociais e os algoritmos ampliam a exposição de crianças e adolescentes para
públicos desconhecidos, sem filtro e sem proteção”, observou.
Na sequência
do seminário, foi iniciado o bloco voltado à prevenção contemporânea e aos
novos riscos relacionados à pornografia infantil e à violência digital, com
palestra ministrada pela pedagoga Keyla Cristina Parreiras Pinto Aredes, a Tia
Keyla, vereadora em Contagem.
Tia Keyla
abordou os impactos da chamada “cultura da pornificação” sobre crianças e
adolescentes, alertando para a facilidade de acesso a conteúdos pornográficos na atualidade e os reflexos
disso no comportamento social.
“Hoje
crianças e adolescentes estão sendo expostos a conteúdos eróticos,
pornográficos e obscenos através de uma cultura totalmente pornificada. A
pornografia distorce o ser humano de quem ele é”, afirmou.
Segundo ela,
o consumo contínuo desse material provoca dessensibilização emocional e
comportamental, contribuindo para o aumento de práticas abusivas e da
exploração sexual infantil. “A pornografia está dessensibilizando o cérebro de
crianças e adolescentes, como já dessensibilizou o cérebro de muitos adultos.
Quanto mais a pessoa se vicia, mais ela busca estímulos extremos”, alertou.
Na etapa
seguinte do seminário, o juiz de Direito Jefferson Torres
Freitas abordou o tema “Proteção Integral em Rede: o papel do Judiciário
na articulação entre Conselho Tutelar, Assistência Social, Escola e Sistema de
Justiça”.
“Agradeço ao
Roney pelo convite. É uma honra estar aqui podendo compartilhar e, de alguma
forma, contribuir como membro do Poder Judiciário local”. Ressaltou a
importância da integração entre os órgãos públicos e a sociedade civil no enfrentamento
à violência contra crianças e adolescentes, enfatizou.
“Nós, no
Judiciário, não raro nos deparamos com situações bastante graves envolvendo
abuso infantil e exploração sexual da criança e do adolescente”, afirmou o juiz.
Jefferson
Torres Freitas destacou que a rede de proteção existente em São Sebastião do
Paraíso possui papel fundamental no acolhimento e encaminhamento das denúncias
de violação de direitos. “A rede é um instrumento muito valioso de porta de
entrada e destinatária dessas questões que envolvem a violação dos direitos da
criança e do adolescente. Polícia Civil, Polícia Militar, sociedade civil,
CRAS, CREAS e Conselho Tutelar estão devidamente organizados para tratar dessas
situações”, observou.
O juiz
também relatou experiências pessoais vivenciadas ao longo da carreira,
afirmando que os casos de violência infantil deixam marcas profundas e reforçam
a necessidade de conscientização permanente da população.
“Esse é um
tema sensível que nos toca e marca muito a vida da gente. Precisamos contribuir
de alguma forma para erradicar esse tipo de prática que, infelizmente, vem
crescendo dentro da sociedade”, disse.
Durante a
palestra, Jefferson Freitas citou ainda uma experiência ocorrida em uma escola
no distrito de Guardinha, onde participou de uma ação de conscientização
promovida junto ao CREAS. Segundo ele, apesar do esforço de divulgação, a
participação dos pais foi pequena, fato que chamou sua atenção.
“Existe uma
preocupação grande no sentido de conscientizar as famílias, mas a adesão ainda
é pequena. A maioria dos abusos acontece no ambiente doméstico, muitas vezes
praticados por pais, padrastos ou parentes próximos”, ressaltou.
Ao final, o
juiz reforçou que a prevenção passa necessariamente pela informação e pelo
fortalecimento da conscientização social.
“O que
precisamos fazer para evitar esse tipo de situação é levar conhecimento às
pessoas e informá-las o máximo possível sobre a importância da prevenção”,
concluiu.
Encerrando o
evento, o vereador Roney Vilaça destacou a importância do compromisso coletivo
na proteção da infância e no combate às violações de direitos das crianças e
adolescentes.
“Todas as
vezes que uma criança é violada, todos nós falhamos. Falha o Poder Judiciário,
falha a polícia, falham as igrejas, a escola, a sociedade civil. Falhamos
enquanto seres humanos. Mas estamos aqui justamente para tentar fazer o melhor
e mudar essa realidade dentro das nossas zonas de influência”, afirmou.
Roney ressaltou ainda que as transformações começam pelas ações locais e pelo alcance de cada pessoa e instituição. “A gente não consegue alcançar o mundo de uma vez, mas começamos de onde nossa mão alcança. Hoje ela alcança aqui, e, se Deus permitir, alcançará ainda mais no futuro”, disse.

