Kayho Rodrigues celebra 18 anos de trajetória no teatro
Paraisense construiu uma carreira dedicada às artes cênicas, com mais de 150 apresentações e cerca de 1,4 mil alunos envolvidos em seus projetos
Em 28 de
outubro de 2008, um jovem estudante da Escola Estadual Paraisense subia ao
palco do Teatro Municipal Sebastião Furlan para interpretar Fred von Trapp, no
musical A Noviça Rebelde. Naquele momento, Kayho Rodrigues dava os primeiros
passos de uma trajetória que transformaria sua relação com a arte e marcaria a
formação teatral de centenas de estudantes em São Sebastião do Paraíso. Dezoito
anos depois, o artista comemora uma carreira que reúne mais de 80 espetáculos,
150 apresentações e aproximadamente 1.400 alunos que passaram pelos projetos
que desenvolveu e dirigiu.
A
história de Kayho com as artes começou antes mesmo de sua estreia como ator. Em
2006, quando ingressou na quinta série da Escola Estadual Paraisense, passou a
integrar o coral coordenado pela professora Zélia Diogo Malaguti, participando
do tradicional Natal de Luz. Dois anos depois, a educadora criou um projeto de
teatro musical no contraturno escolar, proporcionando aos estudantes a
oportunidade de experimentar a interpretação, o canto e a preparação de
espetáculos.
Foi
nesse projeto que surgiram suas primeiras experiências nos palcos. Depois de A
Noviça Rebelde, em 2008, participou da montagem de A Bela e a Fera, no ano
seguinte, interpretando Gaston. Além de Zélia, Kayho destaca a contribuição de
Vanessa Takahashi e Túllio Costa, responsáveis pela preparação musical dos
espetáculos. “Atribuo a eles muito do que sou hoje em relação ao
comprometimento com a arte, à disciplina, ao amor, à paixão e à entrega ao
trabalho”, reconhece.
Entre
2010 e 2011, Kayho frequentou a Oficina de Artes Cênicas Sebastião Furlan, onde
foi aluno de Katia Mumic e participou do espetáculo Veríssimo Outras Histórias.
Paralelamente, começou a desenvolver seus próprios projetos. Em 2010, enquanto
cursava o primeiro ano do ensino médio na Escola Estadual Benedito Ferreira
Calafiori, dirigiu Queridas Feras, texto de sua autoria inspirado nas Erínias
da obra de Ésquilo. A pequena apresentação escolar representou sua primeira
experiência à frente de uma montagem teatral.
O passo
seguinte veio em 2011, graças ao incentivo da professora de Educação Física
Gisa Duarte Alves. Diante do pouco interesse de Kayho pelas atividades
esportivas, ela sugeriu que desenvolvesse uma peça de teatro durante suas
aulas. A proposta deu origem a Remix, espetáculo inspirado na novela Rebelde
Way, com a participação dos próprios colegas de turma. A montagem estreou em
maio daquele ano, no Teatro Municipal Sebastião Furlan, e reuniu mais de mil
espectadores em três apresentações.
O
sucesso abriu caminho para a criação de um projeto teatral permanente na
escola, inicialmente conhecido como Grupo de Teatro do Ditão. Em 2012, com a
montagem de Doce Tentação, a iniciativa passou a receber estudantes de
diferentes turmas do ensino médio. Mesmo depois de concluir os estudos, Kayho
continuou conduzindo o trabalho, contando com o apoio dos diretores Alípio
Mumic Filho, José Luiz Gomes e Viviane de Carvalho.
Em 2015,
o grupo ganhou o nome de Paraíso Companhia de Teatro e passou a organizar
festivais com diferentes espetáculos. O crescimento ficou evidente no ano
seguinte, quando foram registradas mais de 75 matrículas e produzidas três
montagens. Uma nova versão de Remix atraiu quase mil espectadores em quatro
apresentações. O repertório também incluiu obras como Pluft, o Fantasminha, O
Patinho Feio, Chapeuzinho Vermelho, Romeu e Julieta, além de textos autorais
como Todo o Tempo do Mundo, Rastros de Mentiras e Balacobaco.
Durante
esse período, Kayho acumulava as funções de diretor, professor e responsável
por diferentes etapas da produção. Os alunos também participavam da criação dos
cenários, figurinos, sonorização e organização das apresentações. Em 2018, após
um ano em que o grupo realizou oito apresentações, decidiu encerrar sua
participação no projeto, desenvolvido voluntariamente, para concentrar os
esforços em sua atuação na Oficina de Artes Cênicas Sebastião Furlan.
O
retorno à Oficina havia acontecido em 2016, a convite de Katia Mumic,
inicialmente como assistente de direção. Em 2019, recebeu o convite para
assumir uma das turmas como diretor, função que exerce até hoje. Naquele ano,
dirigiu a montagem de Roque Santeiro, apresentada no Teatro Municipal.
Um dos
maiores desafios dessa nova fase surgiu com a pandemia de Covid-19, em 2020,
quando as atividades precisaram ser adaptadas ao formato virtual. Apesar das
dificuldades, o grupo conseguiu realizar, em 2021, uma de suas produções mais
marcantes: Maria Engomada. Com aproximadamente 90% dos ensaios realizados pela
internet, o espetáculo foi apresentado na Praça da Fonte e reuniu mais de 900
espectadores. O local foi escolhido por sua relação com a lenda da personagem,
que, segundo a tradição popular, teria sido enterrada no antigo cemitério
municipal situado naquela região.
A partir
de 2022, uma parceria com o Teatro da ACISSP abriu novas possibilidades para as
montagens da Oficina. O trabalho passou a contar com cenários mais elaborados,
figurinos confeccionados especialmente para os personagens, trilhas sonoras
específicas e equipamentos de sonorização individuais. Entre os espetáculos
apresentados nessa fase estão Romeu e Julieta, Sonho de uma Noite de Verão, O
Quebra-Nozes e uma nova montagem de A Noviça Rebelde, justamente a obra que
marcou sua estreia como ator.
O aperfeiçoamento
técnico é um dos aspectos que mais orgulham Kayho ao analisar sua evolução
profissional. Ele recorda que, no início, os cenários eram feitos com TNT e
materiais simples. Atualmente, as produções utilizam projeções, tecidos
personalizados e estruturas suspensas, recursos que ampliam as possibilidades
de criação e apresentação ao público.
A
dedicação ao teatro também foi acompanhada pela formação acadêmica. Entre 2013
e 2015, Kayho cursou licenciatura em Artes Visuais na Universidade de Franca.
Em 2018, realizou complementação de licenciatura em Teatro no Centro
Universitário Ítalo-Brasileiro, em São Paulo. Posteriormente, entre 2021 e
2023, concluiu o mestrado em Artes pelo ProfArtes, da Universidade Federal de
Uberlândia.
Segundo
o artista, o mestrado representou uma transformação importante em sua maneira
de ensinar. A experiência ampliou sua compreensão dos processos de aprendizagem
e trouxe maior segurança para desenvolver projetos com os estudantes. Em agosto
de 2026, conquistou mais uma etapa de sua formação ao ser aprovado no doutorado
em Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente, viaja
semanalmente a Belo Horizonte para acompanhar as atividades acadêmicas.
Além da
atuação na Oficina, Kayho mantém forte ligação com a educação básica. Em 2018,
retornou à Escola Estadual Paraisense, desta vez como professor, e criou o
Festival Estudantil de Teatro dos sétimos anos, projeto que acontece
ininterruptamente desde 2022. Também atua na rede privada de ensino, dirige
espetáculos escolares e ministra cursos e oficinas. Seu trabalho como
pesquisador já resultou na publicação de oito artigos na área do ensino de
teatro.
Ao longo
desses 18 anos, o contato com os estudantes e as relações construídas nos
palcos se tornaram parte fundamental de sua trajetória. Kayho considera que o
teatro também contribuiu para sua formação pessoal, especialmente na maneira de
compreender as diferenças entre as pessoas. “Acredito que o teatro me tornou
uma pessoa mais empática, capaz de se colocar no lugar do outro”, afirma.
Para
ele, a possibilidade de experimentar outras realidades por meio dos personagens
continua sendo uma das maiores motivações para permanecer na atividade. A
imersão nas histórias ultrapassa os ensaios e apresentações, influenciando até
mesmo suas referências musicais e hábitos cotidianos. “É muito bom ficar imerso
no universo de uma montagem. Essa convivência com a história, os personagens e
a música é uma parte importante do prazer que encontro no fazer teatral”,
destaca.
Atualmente, seus espetáculos reúnem mais de três mil espectadores por ano. Enquanto celebra as quase duas décadas dedicadas às artes cênicas, Kayho prepara a estreia de José – O Rei dos Sonhos, prevista para este mês. Paralelamente, pretende aprofundar os estudos no doutorado, aprimorar o trabalho desenvolvido na Oficina de Artes Cênicas Sebastião Furlan e ampliar sua atuação artística e acadêmica para além do município.



