O que muda nos carros de F1 com o novo regulamento
Poucas vezes a F1 mudou de forma tão radical o regulamento técnico como este que vai exigir muito da inteligência dos pilotos no gerenciamento de energia
Quem acompanha a F1 já deve ter perdido as contas de quantas
vezes ouviu falar do novo regulamento para este ano. Os projetistas iniciaram
seus trabalhos a partir de uma página em branco de computador sem que fosse
aproveitado um parafuso sequer dos carros do ano passado.
Os carros de 2026 estão 30 kg mais leves, passando de 798
para 768 kg. É a primeira vez desde 1990 que eles deixam de ganhar peso. Nos
últimos 35 anos houve acúmulo de 293 kg! Eles ficaram ligeiramente mais
estreitos passando de 2,0 metros para 1,90, e 20 centímetros mais curtos, de
3,60 metros para 3,40, com a distância entre-eixos também 20 centímetros mais
curta. Pode parecer pouco, mas fará grande diferença de desempenho,
principalmente em pistas como Mônaco e Hungria, de difíceis ultrapassagens. Os
pneus também sofreram redução em tamanho com os dianteiros 2,5 centímetros, e
os traseiros 3 centímetros menores, reduzindo a área de contato com o asfalto,
o que significa menos aderência e maior distância para frenagem, otimizando o
carregamento da bateria. Tudo isso faz parte do pacote para reduzir a escalada
de tamanho e peso que os carros vinham ganhando nos últimos anos, que era uma
reclamação constante dos pilotos.
Embora haja redução do peso bruto dos carros, os motores
ganharam mais peso com o novo regulamento (de 151 kg para 185 kg), porém, agora
têm mecânica mais simples que seus antecessores, com a eliminação do complexo
sistema de recuperação de energia calorífica (MGU-H). Essa simplificação foi um
dos motivos que atraiu a Audi, o retorno da Ford - parceira técnica da
Powertrains - divisão de motores da Red Bull que fabrica seu próprio motor, e
da desistência da Honda que havia anunciado sua retirada da F1 e mudou de ideia
com as novas especificações.
O motor continua sendo V6 turbo de 1,6 litros, mas agora
mais semelhante ao conceito dos carros híbridos de rua. O sistema de
recuperação de energia passa a ser um dos grandes desafios da temporada para os
pilotos. Isso porque a potência gerada pela parte elétrica foi triplicada, passando
dos 120 kw para 350 kw (470 cavalos); que significa que a nova “unidade de
potência” (UP), como são chamados os motores híbridos da F1, terá valores muito
próximos de 50% da potência vinda do sistema de recuperação de energia, e os
outros 50% da potência oriunda do motor a combustão interna - que em outras
palavras, perdeu potência (dos 750cv para 544cv) para ficar em pés de igualdade
com o elétrico. O motor a combustão passa a ser alimentado por combustíveis
100% sintéticos, que as fornecedoras tiveram que produzir a partir de moléculas
sustentáveis encontradas seja na natureza, no agro, ou até mesmo em lixo
urbano, exceto resíduos de alimentos. É o fim definitivo dos combustíveis
fósseis na F1.
O ‘xis’ da questão, e que todo mundo deverá ficar de olho,
será a forma como os pilotos vão gerenciar a energia na condução de seus
carros. Eles terão três novos botões no volante: o “recharge” para carregar a
bateria; o “boost” para usar potência extra para se defender ou atacar da forma
que desejar durante cada volta, e o “modo ultrapassagem” que substitui o antigo
sistema DRS (asa traseira móvel), dando mais potência para ultrapassar quando o
carro estiver a menos de 1 segundo de distância do da frente. A falta de
precisão na administração dessa energia poderá deixar o piloto sem potência em
algum momento da corrida, deixando-o vulnerável. Me chamou atenção o que disse
o experiente Esteban Ocon, piloto da Haas, que “o gerenciamento de energia
mudou de tal forma a maneira de pilotar, que é como se tivéssemos que esquecer
tudo o que aprendemos desde o kart”.
Na parte aerodinâmica, o assoalho dos carros agora tem o
fundo plano, como sempre foi antes do regulamento do efeito-solo, implantado em
2022. Os pilotos poderão mudar o ajuste das asas dianteira e traseira que agora
são móveis. Elas abrirão nas retas para diminuir o arrasto aerodinâmico (mas
sem o efeito de ultrapassagem como era antes), e fecharão nas curvas para dar
mais aderência no contorno.
Diante de tudo isso, o atual campeão, Lando Norris prevê o
caos nas corridas, o que vai ser bom para o público. Ele explicou de forma
simples como o regulamento vai interferir no estilo de pilotagem: “Você tem uma
bateria muito potente que não dura muito. Então, saber usá-la nos momentos
certos ao longo de uma volta será o maior desafio”.
De 11 a 13 e de 18 a 20 deste mês as equipes estará no Bahrein para os testes de pré-temporada antes do início do campeonato dia 8 de março.

