Grupo Ora Viva São Gonçalo celebra 15 anos preservando fé, cultura e tradição em Paraíso
Fundado a partir do cumprimento de uma promessa, grupo mantém viva a tradição do Terço e da Dança de São Gonçalo em comunidades rurais do município
Uma
promessa feita por mãe e filho deu início, em 2011, a uma história que
atravessa gerações e mantém viva uma importante manifestação da cultura popular
e religiosa de São Sebastião do Paraíso. Há 15 anos, o grupo “Ora Viva São
Gonçalo” reúne fé, música, oração e dança por meio do tradicional Terço e Dança
de São Gonçalo.
A
criação do grupo surgiu da necessidade de Marcelo de Morais, conhecido como
Marcelo Cela Véia, e de sua mãe, Sílvia, cumprirem uma promessa. Para realizar
o terço conforme a tradição, Marcelo reuniu um grupo de amigos que, orientados
por Victor Doniro, aprendeu a “tirar o terço”, expressão utilizada para
descrever a condução das orações e dos cânticos dedicados ao santo.
Na
mesma ocasião, também foi formado um grupo de catira. De acordo com a tradição,
após o Terço de São Gonçalo, os catireiros se apresentam para saudar o santo,
considerado padroeiro dos violeiros e protetor das pernas.
A
catira é uma dança popular marcada pelo som das violas, pelas palmas e pelas
batidas dos pés no chão. Os movimentos acompanham o ritmo das modas de viola e
transformam a celebração religiosa em uma manifestação que une devoção, música
e identidade cultural.
O
ritual começa com a oração tradicional do terço do Rosário. Em seguida, os
chamados foliões se reúnem com violas e violões para cantar as toadas de São
Gonçalo, compostas por versos e rimas dire-cionados ao santo.
Cada
integrante desempenha uma voz diferente, começando pelo chamado “tirador”.
Enquanto cantam, os foliões balançam o corpo de um lado para o outro,
acompanhando a melodia das violas. Depois dos cânticos, os catireiros se
posicionam diante do altar montado para a celebração e iniciam a dança ao som
da música sertaneja de raiz.
O
primeiro terço organizado por Marcelo foi realizado na residência de sua mãe. O
que deveria ser apenas o cumprimento de uma promessa, porém, acabou se
transformando em uma tradição que permanece até hoje.
Após
aquela primeira celebração, outras pessoas começaram a procurar Marcelo. Eram
famílias que também tinham promessas a cumprir, mas encontravam dificuldades
para localizar grupos que ainda realizassem o Terço de São Gonçalo conforme os
costumes antigos.
Marcelo
reunia novamente os foliões e catireiros, e o grupo seguia para mais uma casa,
sítio ou comunidade. Uma celebração levou à outra, e a iniciativa ganhou força
principalmente nos bairros rurais de São Sebastião do Paraíso.
Ainda
em 2011, foi realizado o primeiro Terço de São Gonçalo no sítio de dona Maria,
conhecida como Maria do Vino, no bairro rural Chapadão. A partir daquele
momento, a celebração tornou-se perpétua.
Todos
os anos, no mês de junho, o Terço e a Dança de São Gonçalo são realizados na
propriedade juntamente com as orações dedicadas a Santo Antônio, São João e São
Pedro.
Atualmente,
o grupo realiza pelo menos uma celebração por mês, principalmente na zona
rural, atendendo famílias que procuram os integrantes para o cumprimento de
promessas. As atividades são interrompidas somente durante a Quaresma,
considerada pelos membros um período de guarda, recolhimento e respeito.
Em
2026, para celebrar os 15 anos de existência do “Ora Viva São Gonçalo” e também
os 15 anos do terço perpétuo realizado no bairro Chapadão, o grupo presenteou
dona Maria com uma imagem de São Gonçalo.
Segundo
Marcelo, o presente foi uma forma de agradecer à moradora e à família pela
maneira carinhosa com que recebem o grupo ao longo de todos esses anos. Existe
ainda a possibilidade de que, futuramente, a imagem seja entronizada em uma
capela construída na propriedade pelos filhos e netos de dona Maria.
A
homenagem trouxe também uma feliz coincidência. O grupo entregou a imagem na
véspera do aniversário de dona Maria, sem saber da proximidade da data. Na
quinta-feira, 30 de julho, ela completou 88 anos.
Para
Marcelo Cela Véia, a continuidade das celebrações representa a preservação de
uma tradição cultural e religiosa que faz parte da história do município. “Essa
é uma tradição e uma cultura do nosso município que estamos mantendo viva”,
afirma.
Ao
recordar os 15 anos de trajetória, Marcelo também faz questão de agradecer às
pessoas que contribuíram para a formação do grupo e para a transmissão dos
conhecimentos relacionados ao Terço e à Dança de São Gonçalo.
“Quero
mencionar, com muita gratidão, alguns nomes que foram essenciais para que esse
grupo existisse e tomasse forma. Foram pessoas que me ensinaram o que sei hoje
sobre o Terço e a Dança de São Gonçalo, estiveram comigo no início, cantaram e
dançaram com a gente”, declara.
Marcelo
agradece a Victor Doniro, Geralda Nunes, Abadia Nunes, Maria Abadia, Salvadora,
Adair Pacheco, Tarcísio e Vandeir José. Abadia Nunes e Vandeir José já
faleceram. “A eles, a minha eterna gratidão”, conclui.
longo de uma década e meia, o som das violas, das palmas e dos pés batendo no chão segue ecoando pelas casas e comunidades rurais de Paraíso. Mais que o cumprimento de uma promessa, o trabalho do grupo tornou-se uma forma de conservar a memória de um povo e de garantir que uma tradição antiga continue sendo ensinada, cantada, dançada e vivida pelas próximas gerações.

