Santa Casa amplia serviços e investe em estrutura para fortalecer atendimento regional

Ao JS o cardiologista Flávio Vilela Diogo, primeiro tesoureiro da Santa Casa, apresenta avanços na assistência, projetos em andamento e os desafios financeiros da instituição
Foto: Tiel/Jornal do Sudoeste

A reforma da emergência, a entrada em funcionamento de um novo tomógrafo, a ampliação de procedimentos de alta complexidade e o planejamento de um novo centro cirúrgico marcam uma etapa de investimentos na Santa Casa de Misericórdia de São Sebastião do Paraíso. Ao mesmo tempo, a instituição trabalha para reorganizar dívidas e ampliar suas fontes de receita, buscando sustentar uma estrutura que atende moradores do município e de diferentes regiões de Minas Gerais.

Em entrevista ao Jornal do Sudoeste para o caderno dos 205 anos de São Sebastião do Paraíso, o cardiologista Flávio Vilela Diogo, primeiro tesoureiro da Santa Casa, apresentou um balanço dos últimos dois anos e detalhou projetos para os próximos meses. Segundo ele, os resultados refletem o envolvimento da administração, do corpo clínico, da Irmandade e de apoiadores da instituição.

“Juntos somos mais” é o lema citado pelo médico para definir esse trabalho. À frente da administração estão o provedor Clécio Pimenta, o vice-provedor Rodrigo Russo e os demais integrantes da diretoria.

Emergência reformada

Uma das principais intervenções foi a reforma do setor de emergência, realizada com recursos arrecadados no jantar beneficente promovido pela Santa Casa no ano passado. As obras contemplaram a ampliação e a reorganização dos espaços, com melhorias nos consultórios e nas áreas de assistência.

Segundo Flávio Vilela, a estrutura dispõe de uma sala de choque e sete leitos equipados com monitores e ventiladores, oferecendo melhores condições para o suporte a pacientes graves.

“A importância é o sistema de emergência do hospital funcionar direitinho e nós termos um acolhimento bom na porta de entrada do hospital”, afirmou.

O médico destacou que a Santa Casa é referência para sete municípios em diferentes especialidades. Na cardiologia, a abrangência alcança 102 cidades mineiras, que encaminham pacientes para tratamento na instituição.

A reforma, conforme sua avaliação, contribuiu para melhorar o acolhimento e o fluxo de atendimento. Flávio também explicou que a permanência na emergência envolve diferentes etapas, como consulta, exames e avaliação dos resultados, cujo tempo depende das necessidades de cada paciente.

Novo tomógrafo e avanços na cardiologia

O Hospital do Coração passou a contar com um tomógrafo de 64 canais, que começou a ser utilizado na semana da entrevista. Além de exames de tórax, abdômen e crânio, o equipamento permitirá realizar angiotomografia de coronárias, ampliando os recursos para avaliação das artérias que irrigam o coração.

A equipe está sendo preparada para esse exame, considerado mais complexo. Segundo Flávio Vilela, a tecnologia poderá contribuir para esclarecer diagnósticos e definir com maior precisão quais pacientes necessitam de cateterismo e, quando indicada, angioplastia.

Os números apresentados pelo cardiologista demonstram o movimento do serviço. Mensalmente, são realizadas entre trinta e quarenta cirurgias cardíacas abertas, enquanto as internações sob os cuidados da equipe de cardiologia chegam a aproximadamente duzentas. Também são feitos, em média, de cento e vinte a cento e quarenta cateterismos e de trinta a quarenta angioplatias por mês.

Na hemodinâmica, a instituição realiza procedimentos por cateter que, em casos selecionados, permitem tratar doenças sem cirurgia aberta. Entre eles está o implante de válvula aórtica por cateter, conhecido como TAVI, utilizado em pacientes com indicação para o procedimento e risco elevado para a operação convencional. Em outubro, segundo Flávio, dois desses procedimentos haviam sido realizados com sucesso. “Isso tem se tornado uma rotina aqui para a nossa região, e são procedimentos de alta complexidade”, destacou.

O médico citou ainda intervenções por cateter para correção de determinadas comunicações congênitas entre cavidades do coração, mediante a colocação de dispositivos que fecham essas aberturas.

 

Reconhecimento no tratamento do infarto

Flávio também destacou o reconhecimento recebido pelo Hospital Regional do Coração pela qualidade do atendimento a pacientes com infarto pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Conforme relatou, avaliações e auditorias estaduais apontaram resultados que levaram o serviço ao reconhecimento de excelência. Entre os indicadores mencionados está a alta hospitalar da maioria desses pacientes antes de completar quatro dias de internação. Na avaliação do cardiolo-gista, o resultado demonstra maturidade e eficiência do serviço. Ele ressaltou que o desempenho se refere à assistência prestada pelo SUS.

“Eu estou dizendo tratamento feito pelo SUS, não pacientes particulares ou de convênio”, enfatizou. A premiação foi recebida em Belo Horizonte.

Atendimento aqueimados

Entre os avanços dos últimos dois anos, o entrevistado ressaltou a implantação do setor de atendimento a queimados, com UTI específica e atuação conjunta das equipes de cirurgia plástica e cirurgia geral.

Segundo ele, o serviço ampliou as possibilidades de assistência especializada no Sul e Sudoeste de Minas, permitindo que pacientes sejam tratados em São Sebastião do Paraíso, mais próximos de seus municípios de origem.

Flávio relatou que a Santa Casa recebeu recentemente quatro pacientes transferidos após um acidente em Guaxupé. Embora tenha ressaltado a gravidade desses casos, destacou a importância de a região contar com uma estrutura que anteriormente exigia encaminhamentos para centros mais distantes, como o Hospital João XXIII, em Belo Horizonte.

Neurologia e cirurgia vascular

Na neurocirurgia, o médico apontou avanços na assistência a urgências, incluindo pacientes com quadros como AVC hemorrágico e edema cerebral que necessitam de avaliação e intervenção especializada.

A equipe também foi reforçada com a contratação do neurologista Ian da Silva Raposo. Segundo o tesoureiro, a chegada do profissional integra o planejamento para desenvolver, futuramente, procedimentos por cateter destinados ao tratamento de aneurismas cerebrais.

Esses tratamentos ainda fazem parte dos projetos de ampliação do serviço. A intenção, conforme explicou, é incorporar recursos que permitam tratar determinados aneurismas por técnicas endovasculares, conforme a indicação de cada caso.

Na cirurgia vascular, a Santa Casa já vem ampliando a utilização da hemodinâmica. Flávio citou procedimentos para correção de aneurismas de aorta com endopróteses e intervenções com stents em outras artérias, permitindo realizar por cateter tratamentos que antes dependiam de cirurgia aberta.

Mais de 500 cirurgias eletivas por mês

Outro projeto é a implantação de um novo centro cirúrgico, com quatro salas, voltado à ampliação da capacidade de realizar procedimentos de menor porte. A proposta é trabalhar com dois centros cirúrgicos e aumentar o volume de atendimento.

De acordo com Flávio Vilela, a Santa Casa já realiza mais de 500 cirurgias eletivas por mês. Além de ampliar o acesso a procedimentos programados, essa produção tem papel importante na sustentação financeira do hospital.

O cardiologista explicou que os recursos obtidos com atendimentos eletivos ajudam a manter a estrutura de emergência, que exige equipes e serviços permanentemente disponíveis.

Segundo ele, os valores pagos pelo SUS não cobrem adequadamente os custos dessa assistência. Por isso, a administração busca equilibrar o atendimento de urgência com a ampliação das atividades programadas.

“É função social do hospital atender todo mundo e atender com rapidez, atender com eficiência”, afirmou, ao mencionar os pacientes encaminhados pelo SAMU, pelo Corpo de Bombeiros e aqueles levados pelas próprias famílias.

Contas mais equilibradas, mas desafios permanecem

A atual administração assumiu em 2024, em um cenário de endividamento elevado e compromissos acima da capacidade mensal de pagamento, segundo o primeiro tesoureiro.

Desde então, a diretoria tem negociado a ampliação de prazos e a redução de juros. Flávio Vilela informou que um programa da Caixa Econômica Federal destinado a hospitais permitiu adequar parcelas descontadas dos recebimentos pela produção do SUS, tornando os pagamentos mais compatíveis com a realidade da instituição.

O trabalho, entretanto, ainda não resolveu todas as dificuldades. Conforme o médico, mais de 80% dos pacientes são atendidos pelo SUS, e permanece o desafio de cobrir as despesas mensais e administrar o passivo acumulado.

Apesar disso, afirmou que, nos últimos 24 meses, a instituição conseguiu manter em dia a folha dos funcionários e os pagamentos dos serviços médicos. Os fornecedores, mediante negociação, também vêm recebendo mensalmente.

“Claro que temos ainda um passivo grande, estamos mês a mês tentando equacionar, mas a realidade financeira mudou bastante”, avaliou.

Flávio atribuiu essa evolução à economia, à gestão, às renegociações e à participação do corpo clínico na ampliação dos atendimentos eletivos. Para o próximo ano, a administração pretende buscar novas condições de renegociação e apoio de iniciativas do governo federal e do BNDES destinadas ao setor filantrópico.

Bem Mais Saúde

Entre as iniciativas para ampliar a arrecadação está o projeto Bem Mais Saúde, em preparação há aproximadamente um ano e meio, com lançamento previsto entre outubro e novembro.

Segundo Flávio, a proposta é reunir pessoas que contribuam mensalmente com a Santa Casa e tenham acesso a descontos em consultas e exames particulares. Estão previstas modalidades de adesão individual, para casais e famílias.

O médico esclareceu que o projeto é um cartão de contribuição e descontos, sem se constituir em plano de saúde. Os atendimentos particulares terão cobrança com valores reduzidos, conforme as condições do programa. A expectativa da administração é alcançar pessoas que buscam consultas e exames particulares a preços mais acessíveis e, ao mesmo tempo, criar uma fonte complementar de recursos para o hospital.

Jantar beneficente e participação da comunidade

O Bem Mais Saúde também será divulgado no jantar beneficente marcado para 7 de novembro, no Ouro Verde Tênis Clube. A intenção é consolidar o evento no calendário da cidade e arrecadar recursos para novas melhorias na estrutura hospitalar.

Assim como ocorreu com a reforma da emergência, a participação da comunidade deverá contribuir para intervenções em outras alas da Santa Casa.

Para Flávio Vilela, a continuidade desse trabalho depende da união que tem orientado a gestão. Médicos, funcionários, dirigentes, integrantes da Irmandade, empresários e colaboradores participam do esforço para manter o hospital em funcionamento e ampliar sua capacidade de atender

No município que completa 205 anos, a Santa Casa busca conciliar essa responsabilidade regional com a incorporação de novos serviços e a recuperação financeira, preservando o atendimento cotidiano de quem depende da instituição.