Dos gibis aos ídolos: a trajetória de Saulo Pereira no universo nerd
Morador de Paraíso transformou a paixão por quadrinhos e videogames em conteúdos com grandes nomes da cultura pop e sonha em ampliar esse universo na cidade
No dia
do próprio casamento, Saulo Pereira, 45 anos, escolheu uma trilha sonora pouco
convencional para entrar no cartório: a abertura do anime Dragon Ball GT. Anos
depois, aquele fã de desenhos japoneses teve a oportunidade de entrevistar
Ricardo Fábio, intérprete da canção, e ainda ouvi-lo cantar um trecho durante a
conversa. A história resume bem o caminho percorrido por quem transformou
paixões antigas em encontros que, na infância, pareciam improváveis.
Morador
de São Sebastião do Paraíso, Saulo, conhecido no universo geek como “Bans”, é o
criador do BansPodNerd, projeto dedicado à cultura nerd que reúne episódios de
opinião e entrevistas com profissionais do entretenimento. Embora também
publique no YouTube, prefere se apresentar de outra forma. “Eu não me considero
youtuber, eu me considero um podcaster”, explica. O trabalho começou nas
plataformas de áudio e cresceu sem perder a característica que o motivou desde
o início: falar sobre assuntos que sempre fizeram parte de sua vida.
As
primeiras lembranças vêm dos gibis comprados pela mãe, que queria incentivar o
filho a ler. As histórias da Turma da Mônica abriram caminho para os quadrinhos
de super-heróis, especialmente os da DC Comics. Na mesma época, chegou o
primeiro videogame, um Atari 2600 dividido com o irmão, acompanhado do jogo de
corrida Enduro. Mais tarde vieram os animes, de Akira a Cavaleiros do Zodíaco e
Dragon Ball, além do interesse pelo cinema.
A
relação com os jogos nunca ficou restrita à diversão. “Sabe aquele dia que você
tá estressado? Aquele dia que você quer descansar? Eu usava sempre videogame”,
conta. O hábito de consumir vídeos enquanto realizava tarefas domésticas,
somado à experiência de escrever opiniões no blog Bans Online, ajudou a dar
forma ao podcast.
Inicialmente,
havia apenas o programa de opinião Papo Nerd, distribuído por serviços como
Spotify e Deezer. Com o desejo de experimentar novos formatos, Saulo criou o
Nosso Papo, dedicado às entrevistas, e posteriormente chegou ao YouTube. A
estreia em vídeo foi com um jornalista especializado em games que ele admirava.
Sem experiência como entrevistador, recorda o nervosismo e as perguntas que
hoje considera pouco acertadas. A lembrança, porém, é motivo de orgulho por
mostrar o quanto evoluiu.
Outras
entrevistas aproximaram Saulo de profissionais que acompanhava como fã. Uma das
histórias mais especiais envolve Pablo Miyazawa, jornalista que conheceu como
leitor da revista Nintendo World. Com o tempo, passou a entrevistá-lo,
convidá-lo para episódios e a considerá-lo amigo. “Então são essas pequenas
vitórias que o podcast me proporcionou, que me marcam bastante”, resume. O
encontro com Ricardo Fábio, por sua vez, trouxe de volta a emoção daquela
música escolhida para o casamento.
Para
Saulo, essas experiências também ajudam a mostrar como mudou o lugar ocupado
pela cultura nerd na sociedade. Ele recorda uma infância e uma adolescência em
que gostar de quadrinhos, jogos e animações podia render zombarias e isolamento.
Hoje, vê com satisfação a expansão dos eventos, das produções e das comunidades
de fãs. Em sua avaliação, a série The Big Bang Theory contribuiu para essa
mudança de percepção, posteriormente ampliada pelos filmes da Marvel.
A
internet teve papel decisivo nesse processo. Foi ao encontrar outras pessoas
com interesses semelhantes que ele se sentiu mais à vontade para mostrar essa
parte de sua identidade. E é por isso que insiste na palavra “cultura” ao
apresentar seu programa: as histórias de ficção, acredita, permitem conhecer
diferentes realidades e se aproximar de experiências que não são as nossas.
“Através da cultura a gente se une”, afirma.
Natural
de Guariba, no interior paulista, Saulo morou em Ribeirão Preto, onde conheceu
a esposa, antes de se mudar para São Sebastião do Paraíso. Na cidade, percebe
interesse pela cultura nerd, mas considera que faltam oportunidades para reunir
esse público. Uma conversa após uma sessão do filme do Mario reforçou essa
impressão. Ao comentar que havia entrevistado a dubladora da princesa Peach,
surpreendeu espectadores que não sabiam da existência de um podcast do gênero
produzido por um morador local.
Ele
sonha em ver Paraíso receber um evento geek e, com apoio, montar um estúdio do
BansPodNerd que permita convidar artistas e ampliar a circulação dessas
atividades na cidade. “Eu ainda sonho ver em Paraíso, com incentivo correto,
ter um evento geek”, afirma. É uma perspectiva que combina seu projeto pessoal
com o desejo de oferecer mais espaços de encontro a quem compartilha esses
interesses.
Por trás
dos episódios, entretanto, existe uma rotina exigente. Saulo tem emprego
formal, família e colaboradores no blog, mas concentra em suas mãos grande
parte do planejamento, dos convites, das gravações, da edição e das redes
sociais do podcast. Já pensou em desistir diante do cansaço, embora continue
buscando organização e alguém que possa dividir as tarefas. “Mas dá vontade de
desistir, mas a gente continua firme e forte aí, enquanto tiver gás, e o gás
tem bastante”, garante.
O que
sustenta essa dedicação não são apenas as entrevistas, mas também os vínculos
construídos pelo caminho. Ele cita o editor do blog, Marcelo, conhecido durante
uma edição da CCXP, em São Paulo, e Max, da página Nostalgia Nerd, como amigos
que a internet trouxe para sua vida. “Eu acho que a gente tem que cultivar
essas amizades”, diz.
O
próximo passo que deseja dar é ampliar o alcance do podcast sem perder sua
proposta. No Nosso Papo, procura ir além dos personagens famosos e das
carreiras dos convidados para apresentar também a pessoa que existe por trás do
profissional. Entre o menino que lia gibis e o entrevistador que hoje conversa
com seus ídolos, o fio continua o mesmo: a curiosidade de ouvir histórias e
compartilhá-las.
Seu sonho é encontrar parceiros para que o BansPodNerd cresça e conquiste novos públicos, sem deixar de ser um espaço de conversa, cultura e amizade. E, quem sabe, ajudar a colocar Paraíso no mapa dos grandes encontros da cultura nerd.


