Sete gerações ligadas à terra: Fazenda Santo Amaro une tradição, tecnologia e qualidade

Administrada por Dagmar Resende Pimenta e pelo filho Caio Pimenta Junqueira, propriedade em São Sebastião do Paraíso reúne história familiar, eficiência produtiva e cafés premiados
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Há sete gerações, o trabalho na terra faz parte da história da família que conduz a Fazenda Santo Amaro, em São Sebastião do Paraíso. Atualmente administrada pela cafeicultora Dagmar Resende Pimenta e pelo filho Caio Pimenta Junqueira, a propriedade combina essa herança com tecnologias de manejo, cuidados com a qualidade dos cafés e acompanhamento dos custos. O desafio da geração atual é manter a fazenda produtiva e preparada para o futuro.

Os resultados aparecem tanto na lavoura quanto na avaliação dos grãos. Em um comparativo da Agro PCP envolvendo 13 propriedades, a Santo Amaro apresentou o menor custo por saca e a maior produtividade na média do biênio analisado, conforme as informações fornecidas pela família. Em 2025, seus cafés conquistaram dois primeiros lugares e um terceiro lugar no concurso regional de qualidade.

Por trás desses resultados está um trabalho que envolve preparação do solo em profundidade, análises químicas e biológicas e a manutenção de um campo de testes na própria fazenda. Na irrigação por gotejamento, o acompanhamento da umidade do solo por tensiometria é combinado aos dados de uma estação meteorológica para orientar o uso da água.

UMA HISTÓRIA TRANSMITIDA ENTRE GERAÇÕES

Segundo Dagmar, a trajetória familiar passou pela migração de Perdões para Jacuí e, posteriormente, para São Sebastião do Paraíso. Ela situa os primeiros plantios de café por volta de 1845, quando as notícias dos bons resultados obtidos no Vale do Paraíba estimularam o cultivo na região.

Em seu relato, o pai do coronel Antônio Pimenta foi um dos pioneiros da família na atividade. Após sua morte, os irmãos deram continuidade ao trabalho, que atravessou gerações.

“É um trabalho que começou com eles e a gente foi dando continuidade”, afirma.

Dagmar recorda o avô, Sebastião Pimenta, e o pai, Benedito Resende Pimenta (Didi), que também participou da abertura de lavouras no norte do Paraná. Cada geração enfrentou as dificuldades de seu tempo e contribuiu para a continuidade da atividade.

Hoje, a responsabilidade é compartilhada por Dagmar e Caio, que participam diretamente da gestão. Ela conhece profundamente a história da propriedade e permanece presente nas decisões. Ele acompanha o manejo, os investimentos, a qualidade dos cafés e os resultados econômicos.

A participação familiar também se manifesta na preservação do patrimônio e na apresentação dos produtos. Arquiteta, Isabela atua na restauração da casa-sede e da tulha antiga, além de participar da criação do logotipo da fazenda e do desenvolvimento das embalagens do café. Veridiana também contribui com atividades relacionadas à imagem e ao marketing da propriedade.

TECNOLOGIA PARA ORIENTAR AS DECISÕES

Na Santo Amaro, a adoção de tecnologias acompanha a necessidade de conhecer melhor o solo, as plantas e as condições climáticas. A preparação das áreas em profundidade, associada às análises químicas e biológicas, integra o planejamento produtivo. O campo de testes permite acompanhar alternativas de manejo dentro das condições da própria fazenda.

Aproximadamente 65% da área de café é irrigada, e todos os novos plantios recebem irrigação. Segundo Dagmar, as lavouras mais antigas serão contempladas à medida que forem renovadas.

“Os cafés que são mais antigos têm um sistema radicular muito profundo, então eles aguentam bem a estiagem”, explica.

No sistema por gotejamento, a combinação da tensiometria com as informações meteorológicas oferece elementos para decidir quando e quanto irrigar. A propriedade também utiliza energia fotovoltaica.

Para a cafeicultora, esses investimentos ajudam a enfrentar as adversidades climáticas e a manter maior equilíbrio na produção anual. Ainda assim, o clima continua impondo dificuldades. Neste ano, conforme relata, o excesso de chuvas prejudicou a colheita e provocou a queda de frutos, aumentando o trabalho de recolhimento do café no chão.

As condições também limitaram a dedicação aos microlotes e levaram a família a não participar dos concursos desta safra.

QUALIDADE CONSTRUÍDA NO CAMPO E NA PÓS-COLHEITA

Ao avaliar a evolução do café brasileiro, Dagmar destaca as mudanças ocorridas a partir da década de 1990. Em sua lembrança, o trabalho de pesquisa e orientação técnica, incluindo a atuação da Embrapa, contribuiu para ampliar os cuidados na pós-colheita.

Ela também atribui importância ao incentivo da Illy à produção de qualidade e recorda a visita de Ernesto Illy, então presidente da empresa, à Fazenda Santo Amaro. Segundo a produtora, a orientação sobre o processamento e a valorização dos melhores grãos estimularam mudanças na atividade.

“Não se valorizava, era preço de café commodity”, relembra.

Na Santo Amaro, a produção de café cereja descascado já era realizada no tempo de seu pai, antes da década de 1990. Com o passar dos anos, novas práticas foram incorporadas, entre elas o uso de terreiros suspensos e os cuidados específicos destinados aos microlotes. Dagmar também reconhece a contribuição das cafeterias e dos baristas para transformar a relação dos produtores com a bebida.

“Eu falo que é uma via de mão dupla. As cafeterias ensinaram muito para os produtores e, por outro lado, os produtores começaram a oferecer uma qualidade de café muito boa para eles.”

Na avaliação da cafeicultora, São Sebastião do Paraíso possui condições favoráveis à produção de cafés de qualidade. Na fazenda, os microlotes recebem atenção especial e, segundo ela, chegam a alcançar avaliações de 87, 88 e 89 pontos. Os dois primeiros lugares e o terceiro lugar obtidos no concurso regional de 2025 representam o reconhecimento desse trabalho.

EFICIÊNCIA E RENOVAÇÃO DAS LAVOURAS

A qualidade é acompanhada pelo controle dos resultados econômicos. O desempenho registrado no comparativo da Agro PCP, com menor custo por saca e maior produtividade entre as 13 propriedades na média do biênio, soma-se aos indicadores utilizados pela gestão.

Outro cuidado é a renovação escalonada das lavouras. Segundo Dagmar, o esqueletamento, poda que estimula a formação de novos ramos, é realizado anualmente em uma parcela das plantas, em torno de 20% a 30%, conforme a necessidade. Associado à entrada de lavouras novas em produção, o manejo ajuda a reduzir a alternância entre safras maiores e menores.

A comercialização considera a avaliação e a pontuação dos lotes. Parte do café chega ao mercado externo por intermédio de empresas comercializadoras, as tradings. A exportação direta, entretanto, não está nos planos imediatos, em razão dos custos de uma estrutura especializada.

“No nosso porte, não compensa. O custo é muito alto”, avalia Dagmar.

Quanto à expansão, a intenção é ampliar um pouco o plantio, dentro dos limites da área disponível, mantendo a renovação das lavouras entre as prioridades.

TRABALHO DE  FAMÍLIA E DE EQUIPE

A rotina da Santo Amaro conta com sete colaboradores fixos, que conhecem a propriedade e sustentam o trabalho ao longo do ano. Durante a colheita, a equipe recebe reforço para atender ao volume e ao ritmo dessa etapa. Entre os profissionais, Dagmar e Caio destacam a contribuição de Wagner no cotidiano da fazenda.

Essa continuidade também está presente na trajetória pessoal da cafeicultora. Dagmar morou na fazenda até os cinco anos e, depois, seguiu acompanhando o pai. A convivência e a liberdade que recebeu para participar das atividades contribuíram para sua formação.

“Minha vida inteira eu estive envolvida com a cafeicultura”, resume. Ao comentar a presença crescente das mulheres no setor, ela destaca os resultados alcançados e defende a cooperação na condução das propriedades.

“Eu considero que não existe uma competição entre mulheres e homens na cafeicultura. Eu sempre digo que o ideal é um trabalho de mãos dadas. Eu sempre tive com meu pai, com meu irmão, com meu filho.”

Na Santo Amaro, a passagem entre gerações envolve preservar a memória, incorporar conhecimento e preparar quem dará continuidade ao trabalho. Dagmar reconhece as exigências e as preocupações de uma atividade exposta às condições do tempo, mas mantém a disposição construída desde a infância.

“É um trabalho gratificante, trabalhoso, preocupante. Mas eu acho que quem gosta dessa profissão enfrenta tudo e vai em frente”.